
247 – A estratégia chinesa de projeção econômica no exterior está passando por uma transformação, com uma redução relativa da ênfase em grandes obras de infraestrutura e uma crescente aposta em investimentos comerciais, industriais e tecnológicos capazes de inserir empresas chinesas profundamente nas economias locais. A avaliação é de Jaibal Naduvath, vice-presidente da unidade de Mumbai da Observer Research Foundation (ORF), um dos principais centros de pensamento da Índia.
Em sua análise, Naduvath usa a Tailândia como exemplo dessa nova etapa da presença chinesa no exterior. A tese central é que a influência econômica de Pequim está se tornando menos dependente de projetos de grande visibilidade — como ferrovias, estradas e edifícios públicos — e mais associada à participação de empresas chinesas em cadeias de suprimentos, mercados consumidores, tecnologia e setores industriais estratégicos.
A avaliação deve ser compreendida como a interpretação do autor sobre a estratégia chinesa. Estudos da própria ORF registram que a Tailândia procura equilibrar sua crescente relação econômica com a China com outros parceiros e permanece cautelosa diante do risco de dependência excessiva de Pequim.
Da infraestrutura às cadeias produtivas
Segundo Naduvath, a China utiliza há décadas projetos de infraestrutura como instrumento de aproximação diplomática. Desde os anos 1960, obras de grande impacto visual e simbólico ajudaram Pequim a construir relações políticas em diferentes partes do mundo.
A nova etapa seria mais sofisticada. Em vez de concentrar recursos apenas em infraestrutura, empresas chinesas — inclusive estatais — passam a ocupar posições relevantes dentro das próprias economias dos países parceiros.
O preço, nesse modelo, torna-se uma importante ferramenta competitiva. Produtos, serviços, financiamento e condições comerciais oferecidos por empresas chinesas podem conquistar rapidamente parcelas de mercado, pressionando concorrentes locais e estrangeiros. Na interpretação do pesquisador, essa presença econômica também pode produzir consequências políticas e culturais ao longo do tempo.
Por que a Tailândia é estratégica
A Tailândia ocupa posição particularmente importante nessa estratégia. Localizado no coração do Sudeste Asiático, o país possui infraestrutura industrial desenvolvida, capacidade manufatureira e acesso privilegiado às principais rotas comerciais da região.
Há ainda uma dimensão geopolítica. A localização tailandesa interessa à China diante do chamado “Dilema de Malaca” — a dependência chinesa das rotas marítimas que atravessam o Estreito de Malaca para parte significativa de seu comércio e de suas importações energéticas.
A aproximação entre Pequim e Bangkok não é recente. Os dois países formalizaram um plano de cooperação no fim dos anos 1990 e estabeleceram, em 2007, um marco de cooperação estratégica envolvendo comércio, investimentos, agricultura e turismo. Desde então, a presença econômica chinesa cresceu significativamente.
Segundo os dados apresentados por Naduvath, China e Hong Kong responderam em 2025 por aproximadamente 31% dos pedidos de investimentos estrangeiros apresentados à Tailândia. O pesquisador considera que os números oficiais podem inclusive subestimar a dimensão efetiva do capital chinês, devido à utilização de diferentes estruturas societárias e canais de investimento.
Carros elétricos mostram velocidade da transformação
O setor automobilístico é apresentado como um dos exemplos mais claros dessa mudança.
Durante décadas, a indústria automotiva tailandesa esteve fortemente associada às montadoras japonesas. A expansão dos veículos elétricos modificou rapidamente esse cenário.
Marcas chinesas como BYD e GAC ganharam espaço e, segundo os dados citados por Naduvath, fabricantes chineses já respondem por mais de 70% do mercado tailandês de veículos elétricos.
O processo não se limita às exportações. Empresas chinesas também passaram a investir em fábricas e cadeias de componentes dentro da própria Tailândia, integrando o país às suas redes industriais.
Na avaliação do pesquisador, esse movimento traz investimentos, empregos e novas tecnologias, mas também levanta uma questão para Bangkok: até que ponto a expansão da produção chinesa permitirá o desenvolvimento de fornecedores e tecnologias genuinamente tailandeses, em vez de criar uma cadeia produtiva predominantemente controlada por empresas estrangeiras?
Inteligência artificial é a nova fronteira
A mesma disputa começa a aparecer no setor tecnológico.
A Tailândia pretende se transformar em um polo regional de inteligência artificial, atraindo investimentos em centros de dados, computação em nuvem, hardware e infraestrutura digital. Empresas chinesas ocupam posições crescentes nesses segmentos.
Para Naduvath, a questão estratégica está justamente no controle da cadeia de valor. Um país pode receber grandes investimentos tecnológicos e, ao mesmo tempo, permanecer dependente de fornecedores estrangeiros para equipamentos, plataformas, capacidade computacional e conhecimento.
Essa discussão ocorre em um contexto mais amplo de competição tecnológica na Ásia, em que China, Estados Unidos, Japão, Índia e outras potências procuram ampliar sua presença nas economias do Sudeste Asiático.
Tailândia ainda demonstra autonomia
A expansão chinesa, porém, não significa que Bangkok tenha perdido capacidade de decisão.
Naduvath cita decisões recentes do governo tailandês que contrariaram interesses ou expectativas chinesas, entre elas a resistência a determinados projetos de infraestrutura e restrições comerciais adotadas em setores específicos.
A própria literatura da ORF descreve a política externa tailandesa como um exercício de equilíbrio. Embora a China tenha ampliado sua importância econômica, a Tailândia mantém relações relevantes com Estados Unidos, Japão, Índia e outros parceiros e procura evitar uma dependência estratégica excessiva de qualquer potência.
É justamente nesse ponto que se concentra a preocupação apresentada por Naduvath. Para o pesquisador, a questão não é apenas quanto capital estrangeiro entra em um país, mas quem controla as cadeias produtivas, a tecnologia e os setores essenciais da economia.
A Tailândia, portanto, funciona em sua análise como um laboratório de uma transformação mais ampla da projeção econômica chinesa: da diplomacia baseada sobretudo em grandes obras para uma presença empresarial profundamente integrada às economias nacionais. Para Naduvath, essa mudança amplia as oportunidades econômicas oferecidas pela China, mas também exige dos países receptores políticas capazes de preservar concorrência, capacidade industrial própria e autonomia de decisão.
Cortes 247
Medio: brasil247.com
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