
247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou a tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira (22) para ameaçar abertamente a “aniquilação” do Irã caso não seja alcançado um acordo para encerrar a guerra. A declaração, feita diante dos representantes dos países-membros da ONU, provocou questionamentos sobre sua compatibilidade com o direito internacional e foi interpretada pela Union of Concerned Scientists (UCS) como uma ameaça implícita de emprego de armas nucleares. A Foreign Policy destacou que ameaças desse tipo já foram apontadas por especialistas como potencialmente enquadráveis como crimes de guerra.
Segundo a Reuters, Trump apresentou ao Irã duas alternativas: aceitar um acordo que permita ao país reconstruir-se ou enfrentar sua destruição. “Tenho uma grande decisão a tomar”, afirmou. Em seguida, questionou se deveria “aniquilar a República Islâmica” rapidamente, acrescentando que poderia levar o país ao “inferno”, sem perspectiva de sobrevivência ou de futuro para as próximas gerações.
A formulação é particularmente grave porque Trump não se limitou a ameaçar instalações militares ou objetivos específicos. Ao falar em aniquilação e em ausência de futuro para gerações, empregou uma linguagem abrangente sobre o destino do próprio país. A UCS afirmou que as palavras constituem, em sua avaliação, uma “ameaça implícita” de utilização de força nuclear avassaladora contra o Irã e sua população. Trump, no entanto, não mencionou explicitamente o emprego de armas nucleares nessa passagem do discurso.
Ameaça diante da própria ONU
A declaração ganha uma dimensão adicional por ter sido pronunciada justamente na Assembleia Geral das Nações Unidas. A Carta da ONU estabelece como princípio das relações internacionais que os Estados devem se abster da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de outros Estados.
A Foreign Policy, ao analisar o pronunciamento, observou que advertências desse gênero já foram consideradas por especialistas como potencialmente enquadráveis como crimes de guerra. A avaliação jurídica definitiva, porém, depende das circunstâncias e dos atos concretos praticados: a ameaça verbal, isoladamente, não equivale automaticamente a uma condenação por crime de guerra.
A gravidade das declarações ocorre ainda em um contexto no qual uma missão internacional apoiada pela ONU afirmou, na semana passada, haver “fundamentos razoáveis” para acreditar que forças dos Estados Unidos cometeram crimes de guerra em dois ataques aéreos realizados no Irã, incluindo bombardeios contra uma escola e áreas civis. O governo dos Estados Unidos rejeitou as conclusões da investigação.
Irã promete reagir
As Forças Armadas iranianas classificaram as declarações de Trump como “propaganda” e afirmaram estar preparadas para responder a novas ações militares. Segundo a Reuters, Teerã declarou manter “total prontidão” para impor golpes mais severos e imprevisíveis aos agressores caso ocorram novos ataques.
Apesar da retórica, os canais diplomáticos permaneceram abertos durante a Assembleia Geral. Trump afirmou posteriormente que representantes norte-americanos e iranianos tiveram uma reunião “muito boa” e “muito produtiva” em Nova York e disse acreditar que um acordo poderá ser alcançado. Segundo a mídia estatal iraniana, o chanceler Abbas Araqchi reuniu-se com o enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff, e apresentou condições para a reabertura do Estreito de Hormuz.
Uma autoridade iraniana também disse à Reuters que Teerã poderia reabrir o Estreito de Hormuz em poucos dias caso Washington reduzisse a pressão militar e suspendesse o bloqueio aos portos iranianos. Trump, por sua vez, afirmou que as relações estavam evoluindo e reiterou que os Estados Unidos não aceitariam que o Irã possuísse armas nucleares.
Entre a diplomacia e a ameaça de destruição
A contradição marcou o discurso norte-americano em Nova York. Ao mesmo tempo em que disse acreditar na possibilidade de um entendimento depois das eleições legislativas de 3 de novembro, Trump pediu aos demais países que contribuam para o isolamento econômico do Irã e manteve explicitamente sobre a mesa a possibilidade de sua “aniquilação”.
A ameaça ocorre em meio a uma guerra que já se prolonga por quase sete meses, iniciada por ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, segundo a Reuters. O conflito provocou milhares de mortes, elevou os preços do petróleo e atingiu países vizinhos, ao mesmo tempo em que transformou o Estreito de Hormuz em um dos principais focos de tensão da economia mundial.
Assim, enquanto diplomatas negociam uma saída para o conflito, a Assembleia Geral da ONU foi palco de uma ameaça extraordinária feita pelo presidente da maior potência militar do planeta contra um Estado soberano. E, embora Trump não tenha pronunciado as palavras “arma nuclear”, a dimensão de sua ameaça — “aniquilar” um país e retirar de suas futuras gerações qualquer esperança de sobrevivência — levou especialistas em segurança nuclear a alertar para a interpretação e para as consequências de uma ameaça nuclear implícita.
https://www.brasil247.com/mundo/fala-de-trump-na-onu-sobre-aniquilar-o-ira-constitui-crime-de-guerra-e-ameaca-nuclear/
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