
Por Beatriz Bissio (*) – Nesta eleição geral – Presidência, Congresso, Governadores e Câmaras legislativas dos estados – o Brasil votou dividido entre duas candidaturas que diferiam entre si profundamente: de um lado, a do Presidente Lula, que pleiteia a sua reeleição – no que seria a seu quarto mandato, não consecutivo – com uma plataforma de defesa da soberania, da democracia, do Estado como indutor da justiça social, e de outro a candidatura de Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do ex-presidente Bolsonaro, que não pode concorrer porque está preso e com os seus direitos políticos cassados.
Essa candidatura defende um neoliberalismo extremo, com destruição da proteção social do Estado, o alinhamento acrítico aos interesses norte-americanos, em particular à agenda de Donald Trump, aí incluída, claro, a aliança com Israel, e tudo o que ela representa, além de um extremo individualismo e a devoção (real ou cínica?) aos valores pregados pelas igrejas neopentecostais nos costumes e valores. Tudo isso sem mencionar os escândalos de corrupção em que está sendo investigado, as declarações de que entregaria as terras raras (das quais o Brasil é o segundo detentor mundial, depois da China) e os minerais críticos aos Estados Unidos; as fotos de participação em “festinhas” organizadas pelo representante do que seria no Brasil o equivalente ao caso Epstein nos EUA, e os vínculos, nunca por ele negados, com matadores de aluguel e grupos paramilitares.
A eleição será definida no segundo turno, em 25 de outubro. Flávio Bolsonaro ficou na frente, com 47,03% dos votos e Lula em segundo lugar, com 45,16%. De alguma forma, o resultado é interpretado como consequência não só de questões domésticas, mas também do crescimento da extrema direita no mundo, alicerçado em fortunas de dinheiro, pesquisas comportamentais, sofisticados meios técnicos e variadas formas de intromissão estrangeira.
Do resultado eleitoral final no Brasil vai depender em boa medida o futuro de toda a América Latina, em particular da América do Sul, pelo peso demográfico, econômico e político do Brasil. Essa constatação fica explícita nas significativas declarações de apoio recebidas pelo presidente Lula desde diferentes setores sociais e políticos latino-americanos. E também de outro lado, pelas denúncias – que estão sendo apuradas pela Polícia Federal – , de interferência dos Estados Unidos (leía-se Administração Trump) na campanha eleitoral e desde muito antes, também, tal como aconteceu com as campanhas eleitorais recentes no Chile, na Bolívia, Equador, Perú, Colombia… Tudo isso demonstra que o presidente Lula enfrenta nesta campanha uma oposição muito melhor estruturada nacional e internacionalmente que a de 2022.
Por outro lado, o elevado índice de abstenção, superior ao 20% do eleitorado, e a queda nos votos recebidos pelo presidente Lula na votação deste domingo (4 milhões de votos menos que em 2022 – e só dois milhões de votos o separam de Flávio Bolsonaro) mostram um mal-estar de certa porção do eleitorado pelo alto custo de vida e os índice de violência (que a imprensa mainstream se encarrega de mostrar e voltar a mostrar), problemas reais que enfrentam no seu dia-a-dia principalmente os trabalhadores mais pobres, os desempregados e aqueles que vivem de trabalho com aplicativos. Em relação à violência, a mensagem mais direta e até brutal de Flávio Bolsonaro pode soar mais convincente; já em relação ao tema do custo de vida, a complexidade dos fatores que incidem nos preços dos alimentos e dos combustíveis não é de fácil explicação durante uma campanha. Não basta citar as muitas políticas públicas que o governo Lula conseguiu implementar. Sem elas seria muito pior, é verdade. Porém os seus reflexos no cotidiano dos segmentos menos favorecidos não são fáceis de detectar.
Mas não duvidemos: vencer esse mal-estar e essa decepção com a democracia exige indicar saídas para esse amargo cotidiano. E, para isso, é necessário mostrar que o responsável a ser combatido é um sistema, cuja expressão mais visível é o neoliberalismo econômico. Ao contrário do que pregam as Igrejas neopentecostais, não há “saídas individuais”. Nem é individual o fracasso, que leva à depressão e até o suicídio. O “fracasso” é fruto de um sistema opressor com expressões domésticas e internacionais, e da falta de apoio político para implementar propostas que necessariamente deveriam ir contra esse sistema.
Nada disto é fácil de explicar numa campanha eleitoral. Pior ainda em campanhas com mídias sociais divulgando notícias falsas e tendenciosas e uma mídia tradicional fazendo o jogo desse neoliberalismo, endeusando o ajuste fiscal, o arrocho salarial e condenando todo investimento em em prol dos mais necessitados e em serviços públicos (educação, saúde, transporte) de qualidade. Para quem defende o tão falado “teto de gastos”, tudo isso é “gasto”, não o enxergam nem aceitam discuti-lo como investimento. É necessário, então, pensando no médio e longo prazo, definir tarefas permanentes de formação política, coisa que a esquerda por estas latitudes abandonou há muito tempo, lamentavelmente. E combinar essas tarefas com uma política adequada de comunicação, que leve em consideração as características continentais do país, a sua diversidade regional, educacional, cultural e generacional. Tarefa que possivelmente exigirá organizar uma “força-tarefa” que desde já comece a estudar o tema, as possibilidades reais de implementação de medidas e possa propor iniciativas.
Mas temos um desafio agora, na campanha de três semanas! Então nos cabe arregaçar as mangas, ir para as ruas conversar com os que se abstiveram de votar – 33 milhões de brasileiros! É necessário atuar com inteligência nas redes sociais, e sempre, sempre, apelar à emoção já que muitos especialistas consideram que é a que define o voto do eleitor. Para tal, vale falar com clareza sobre o que representaria uma vitória de Flávio Bolsonaro (há tantos retrocessos a enumerar, sem falar em outros aspectos!) mas também lembrar os 21 anos de ditadura, que exigiu, para reconquistar a democracia, o sacrifício pessoal, a tortura, o derramamento de sangue, o exílio, de milhares de brasileiros. A democracia não é o que desejaríamos? Aí devemos lembrar do recado do presidente Lula na última entrevista da sua campanha: a democracia é uma construção de todos nós; temos que participar – jovens, não tão jovens, velhos! Só assim teremos, também, o direito de criticar!
(*) Historiadora
https://www.brasil247.com/ideias/uma-breve-analise-das-eleicoes-no-brasil-e-os-desafios-futuros/
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