
Nos dias seguintes ao assassinato, manifestantes bloquearam a BR-101, a Avenida Mascarenhas de Morais e ruas da região para exigir a punição dos quatro policiais militares envolvidos na ação. A mobilização reuniu principalmente jovens da comunidade e continuou mesmo diante da presença ostensiva das forças de repressão.
Elvis era caminhoneiro e mantinha também um bar em frente de casa. Natural do Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife, era conhecido no bairro como um pai de família trabalhador. Foi no mesmo lugar onde vivia e criava seus filhos que acabou baleado.

‘Seis tiros em um pai de família com os meninos dentro de casa’
Segundo duas pessoas que presenciaram o ocorrido, a confusão começou quando Elvis discutiu com um policial militar que havia atirado para cima. O caminhoneiro repreendeu o agente, lembrando que havia menores de idade no local e exigindo respeito. De acordo com as testemunhas, o PM respondeu com ofensas, deixou o local e depois retornou acompanhado de outros policiais em uma viatura.
Uma parente de Elvis relatou que os agentes o agrediram com um murro no rosto e um chute no peito. Ele correu para dentro da residência e, ao tentar se defender, jogou uma grade de cerveja na direção do policial.
“Ele jogou, mas nem bateu no policial”, afirmou a testemunha. A parente disse que também tentou defender Elvis e acabou empurrada por cima das garrafas.
Segundo o relato dos familiares, foi nesse momento que ocorreu o primeiro disparo, que atingiu Elvis na região da virilha quando ele já estava dentro de casa. Os filhos estavam na sala e começaram a gritar pelo pai. O mais velho puxou os dois menores para o quarto e permaneceu agarrado a eles.
Os familiares relatam que os policiais invadiram a residência e balearam Elvis mais cinco vezes. “Seis tiros em um pai de família com os meninos dentro de casa gritando ‘papai, papai, papai’”, denunciou uma testemunha.
Elvis ainda foi levado à UPA da Imbiribeira, mas não resistiu. O caso passou a ser investigado pela 3ª Delegacia de Homicídios do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).
A justa revolta das massas
A resposta da comunidade foi imediata. No dia 29 de setembro, moradores do Ibura, familiares e amigos de Elvis tomaram as ruas para exigir justiça.
Por volta das 17h, pelo menos 100 manifestantes, em sua maioria jovens, bloquearam com fogo os dois sentidos da BR-101. Também foram registrados cortes na Rua Colares, Rua Porto Nacional e Avenida Mascarenhas de Morais. A BR permaneceu interditada por horas.
O assassinato de Elvis ocorreu menos de dois meses depois de outra mobilização no Recife contra a morte de um trabalhador pela PM. Em agosto, familiares e amigos do operário da construção civil Ailton Virgílio, conhecido como Guiça, realizaram sucessivos protestos exigindo a prisão do policial apontado como autor dos disparos.

No dia 2 de outubro, moradores voltaram a se mobilizar. A manifestação começou por volta das 18h no quilômetro 76 da BR-101. Foram realizados três cortes de pista, fechando os dois sentidos da rodovia e também a Rua Colares para impedir que veículos furassem o bloqueio. Mais de 50 pessoas, novamente em sua maioria jovens, participaram do ato.
Antes mesmo do início da manifestação, viaturas da PM circulavam repetidamente pela região. Durante o protesto, sete policiais chegaram ao local. Cinco portavam pistolas na cintura, enquanto outros dois estavam com armas longas sacadas — uma submetralhadora e uma escopeta. Ao final, quatro viaturas da PM e uma da Polícia Rodoviária Federal (PRF) estavam na área.
Os policiais afirmaram aos manifestantes que “não pode generalizar” e que estavam ali “para proteger vocês”. A resposta veio de um jovem que participava do ato: “A gente não tem que ter medo deles [PMs] não, tem que denunciar que eles estão fazendo uma chacina, estão matando trabalhador”.
Motoristas retidos pelo bloqueio também ouviam dos manifestantes a razão do fechamento: “A polícia tá invadindo a casa de trabalhador e matando, não vai passar ninguém”.
A consigna que atravessa as mobilizações é “Justiça por Elvis”. Familiares e moradores exigem a punição dos quatro policiais militares envolvidos na ação que terminou com a morte do caminhoneiro.


O contexto de uma guerra contra os pobres
A morte de Elvis não ocorreu como um episódio isolado. Foi a quarta morte decorrente de intervenção policial registrada no Grande Recife somente em setembro.
No primeiro semestre de 2026, o Instituto Fogo Cruzado contabilizou 60 tiroteios durante ações ou operações policiais na Região Metropolitana do Recife — aumento de 88% em relação ao mesmo período de 2025 e o maior número registrado pela organização desde o início da série histórica. Nessas ações, 52 pessoas foram baleadas.
Considerando todo o estado, Pernambuco registrou 89 mortes por intervenção policial em 2025, crescimento de 30,9% em relação ao ano anterior. Entre as vítimas, 94,4% eram pretas ou pardas, todas eram homens e 71,9% tinham até 29 anos.
A violência acompanha a ampliação do aparato repressivo. Os chamados “laranjinhas”, como ficaram conhecidos os policiais recém-integrados à corporação pelos bonés utilizados durante a formação, tornaram-se uma das marcas do aumento do efetivo nos últimos anos. Ao mesmo tempo, tropas especializadas como o Batalhão Especializado de Policiamento do Interior (Bepi) e o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) estão entre as unidades com maior número de mortes em ocorrências policiais no estado.
Esse crescimento do aparato, apresentado oficialmente sob a bandeira da “segurança pública”, não tem significado maior segurança para as massas pobres. Em diferentes regiões do Recife, moradores vêm denunciando invasões de domicílio, extorsões, agressões e assassinatos praticados pelas forças de repressão. Em 2025, moradores da comunidade Beira Rio chegaram a protestar diante do próprio 19º Batalhão — o mesmo ao qual pertencem os policiais envolvidos na morte de Elvis — contra denúncias de abusos cometidos por PMs na região.

O quadro local integra uma política mais ampla já denunciada por AND: enquanto crescem os gastos, efetivos e armamentos destinados à chamada “segurança pública”, a repressão segue atingindo principalmente o povo preto e pobre das periferias e do campo. Em editorial, o jornal já apontou que o fortalecimento desse aparato ocorre sob uma lógica de guerra interna, na qual as massas populares aparecem cada vez mais como alvo da ação repressiva do velho Estado.
No Ibura, essa política ganhou o rosto concreto de Elvis: um trabalhador que criava os filhos e sustentava sua família quando foi morto dentro da própria casa pelas forças de repressão.
A resposta da comunidade também foi concreta. Enquanto os agentes envolvidos em sua morte permanecerem impunes, familiares e moradores afirmam que a mobilização continuará.
“Nós vamos fazer mais protestos, até que tenha justiça”, declarou uma manifestante ao correspondente local de AND.

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