
O general da reserva Eduardo Pazuello (PL-RJ) dirigiu uma ameaça ao Supremo Tribunal Federal (STF) ao defender que a anistia a Jair Bolsonaro e aos generais golpistas alcance também os responsáveis pelas prisões. O recado se dirige especialmente a Alexandre de Moraes, relator dos processos: ao oferecer perdão ao julgador, o general o trata como alguém que também tem contas a acertar.
Na entrevista à Folha de S.Paulo publicada em 12 de outubro, o deputado reeleito declarou: “A anistia tem de ser para todos os lados, inclusive para quem prendeu”. Acusou: “O lado que prendeu cometeu atrocidades”. Embora evitasse citar nomes, a referência era aos integrantes do STF responsáveis pelas prisões e condenações dos golpistas. Seu modelo de conciliação é a anistia de 1979, que garantiu impunidade aos torturadores do regime militar fascista.
A oferta tem uma ressalva bastante conveniente: o impeachment de ministros do STF fica fora do perdão proposto por Pazuello. Na mesma entrevista, o general associou a eleição de senadores à possibilidade de “pacificação”. O Senado, precisamente, é a instituição que julga os pedidos de impeachment contra ministros do Supremo.
Um dia após a publicação da entrevista (ou melhor, da coação), em 13 de outubro, Moraes abateu 86 dias da pena de Paulo Sérgio Nogueira, condenado a 19 anos de prisão, e autorizou atividades administrativas no Exército reacionário. A decisão, noticiada pelo Metrópoles em 14 de outubro, acolheu documentos e um plano apresentados pelo Comando Militar do Planalto (CMP).
O desconto corresponde a 32 dias por trabalho, 24 pela leitura de seis livros e 30 por um curso de 360 horas. O plano aprovado permite que o ex-ministro acompanhe a gestão orçamentária e financeira de organizações militares de saúde. O general condenado pelos preparativos golpistas ganha autorização para atuar na administração da própria instituição que o mantém sob custódia.
A fórmula já havia sido empregada por Flávio Bolsonaro em junho de 2025. Na ocasião, o senador incluiu nominalmente Moraes entre os beneficiários da anistia e aventou “uso da força” caso o STF derrubasse um indulto ao pai. Apresentou a hipótese como “análise de cenário”, enquanto fazia da disposição para enfrentar o tribunal uma exigência ao futuro candidato apoiado pelo clã.
A chantagem encontra um STF desgastado pelos vínculos com Daniel Vorcaro. O escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, recebeu R$ 80,2 milhões do Banco Master e produziu parecer para respaldar a captação de recursos das previdências de servidores públicos. Os negócios expostos pelo escândalo alcançam, portanto, a família do próprio relator dos processos contra os golpistas.
Pazuello exerce o papel político de mensageiro da caserna de golpismo endêmico e encubado: cobra a libertação dos generais e oferece aos julgadores um acerto que mantém pendente a ameaça de afastá-los. O caso Master, embora não citado pelo general, agrava o desgaste da casta judiciária sobre a qual recai a chantagem. A iniciativa procura reafirmar a posição dos militares como tutores da crise, capazes de negociar com os demais poderes as condições da própria impunidade.
Pazuello, em seus doces sonhos, já imagina a volta do clã ao Planalto. Próximo da campanha de Flávio Bolsonaro, previu que o filho libertará o pai e que Jair subirá a rampa para lhe entregar a faixa presidencial.

As quatro estrelas do pedido de perdão
Os beneficiários pretendidos incluem três generais e um almirante que chegaram ao topo da hierarquia militar. Em setembro de 2025, o STF condenou Braga Netto a 26 anos de prisão; o ex-comandante da Marinha Almir Garnier, a 24; Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, a 21; e Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, a 19. Bolsonaro recebeu pena de 27 anos e três meses.
Braga Netto organizou reuniões entre Bolsonaro e os comandantes das Forças Armadas reacionárias e recebeu em sua própria casa militares das Forças Especiais, os kids pretos, envolvidos nos preparativos para a ruptura. Também incentivou ataques ao “legalista” Freire Gomes, então comandante do Exército, por não aderir à aventura.
A ladainha humanitária precede Pazuello. Quando Braga Netto foi preso, em dezembro de 2024, Hamilton Mourão alegou que o colega não oferecia risco à ordem pública. Damares Alves invocou os 67 anos do general e seus serviços à Pátria. As reuniões golpistas, naturalmente, ficaram de fora do atestado de bons antecedentes.
No julgamento de setembro de 2025, a preservação da instituição militar foi anunciada no próprio plenário do STF. Em 9 de setembro, Flávio Dino abriu seu voto ressaltando: “Esse julgamento não é um julgamento das Forças Armadas”. Acrescentou que a soberania nacional exigia Forças Armadas “fortes, equipadas, técnicas e autônomas”. A cúpula saía preservada como interlocutora da crise.
A ameaça ao STF tem antecedentes no alto generalato. Em 2018, o então comandante do Exército, Eduardo Villas-Bôas, pressionou o tribunal às vésperas do julgamento do habeas corpus de Luiz Inácio, com uma postagem articulada com o Alto Comando das Forças Armadas (ACFA). Em suas memórias, o general também registrou que as manifestações políticas e a participação dos militares da reserva eram discutidas com a cúpula para assegurar o alinhamento da caserna. A divisão entre ativa e reserva integra os meios de intervenção política do ACFA. Pazuello atualiza esse repertório ao apresentar a impunidade dos generais como condição de um acerto entre as cúpulas do velho Estado.
A cobertura das investigações também expôs o que havia por trás do suposto “legalismo” dos comandos que não embarcaram na ruptura. Em depoimento ao STF, em maio de 2025, Freire Gomes disse ter advertido Bolsonaro sobre o apoio nacional e internacional, o Congresso e a Justiça. Afirmou que o Exército não participaria de ações fora da legalidade, mas procurou apresentar a minuta golpista como um estudo jurídico e foi advertido por contradições com seu depoimento à PF.
Já em janeiro de 2023, depois das agitações golpistas do dia 8, Tomás Ribeiro Paiva dissera a subordinados que a intervenção era “impossível de fazer”, enumerando o risco de bloqueio econômico, isolamento internacional e resistência nas ruas. Dissera que o resultado eleitoral fora indesejado para “a maioria de nós”. Luiz Inácio escolheu esse mesmo general para comandar o Exército. A divergência sobre as condições para o golpe rendeu aos militares poupados o diploma de “democratas”.
Entre os indiciados pela PF que a PGR deixou de denunciar em 2025 estavam militares investigados pela redação de uma carta que exigia a adesão do Alto Comando à ruptura. O documento circulou pelas três Forças e reuniu mais de mil assinaturas.
O general e o perdão em família
Pazuello disse ter visitado o golpista Braga Netto na prisão e defendeu que os generais possam “recuperar o tempo perdido” com suas famílias. A preocupação com o convívio familiar vem de quem chefiava a Saúde quando pacientes morreram sem oxigênio em Manaus.
Na CPI da Pandemia, o general alegou ter sabido do risco de desabastecimento apenas na noite de 10 de janeiro de 2021. O inquérito do Ministério Público apresentado à comissão registrava que a pasta fora alertada no dia 8. Afirmou ainda que a falta de oxigênio durara só três dias, versão contestada pelos senadores.
Meses antes, em outubro de 2020, Bolsonaro rejeitara a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, anunciada pelo Ministério da Saúde. Ao lado do presidente, Pazuello resumiu a cadeia de comando: “um manda e outro obedece”. Na CPI, tentou rebaixar a declaração a um jargão militar ou de Internet.
O relatório da CPI pediu seu indiciamento por epidemia com resultado morte, prevaricação e crimes contra a humanidade, entre outros. É esse general, executor da política genocida de Bolsonaro, que agora se apresenta como porta-voz do sofrimento das famílias dos golpistas.
Para essa campanha pelo perdão, o general traz experiência própria. Em 23 de maio de 2021, ainda na ativa, subiu ao carro de som de Bolsonaro e discursou num ato no Rio de Janeiro. O Regulamento Disciplinar do Exército vedava manifestações de natureza político-partidária sem autorização. O comandante acolheu o argumento de que o ato não tinha caráter partidário e arquivou o procedimento.
O comandante era Paulo Sérgio Nogueira. Em 2021, livrou Pazuello de punição. Em 2026, o protegido pede que se livre o antigo comandante da cadeia e oferece perdão até aos julgadores dos golpistas. No dia seguinte à publicação do recado, Moraes autorizou Nogueira a acompanhar as contas de organizações militares de saúde.

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