
Quem leu a reportagen do Wall Street Journal na manhã desta quarta-feira (21) ficou um tanto boquiaberto. O rascunho de prospecto que a Anthropic prepara para abrir capital nos Estados Unidos, mostrou um prejuízo acumulado de US$ 80,7 bilhões (R$ 407,5 bilhões, pelo câmbio de 21/10) em apenas seis meses, contra uma receita de US$ 16,3 bilhões no mesmo período.
A conta de padeiro – com todo o respeito aos padeiros – diz que quem fatura dezesseis e perde oitenta já devia estar baixando as portas, a menos que o contador tenha deixado uma pegadinha escondida num canto da planilha.
A pegadinha existe e tem nome de nota conversível, um papel que funciona mais ou menos como o empréstimo que o dono da padaria toma do primo, com a promessa de devolver o dinheiro ou entregar um pedaço do negócio, à escolha do primo, por um preço combinado de antemão. Quando a padaria passa a valer dez vezes mais, a promessa também passa a valer dez vezes mais, e o contador, obrigado a registrar essa obrigação pelo valor justo, lança a diferença como perda.
Foi o que ocorreu na Anthropic, onde cerca de US$ 72 bilhões do prejuízo vêm da reavaliação de notas conversíveis e outros instrumentos de captação, sem que um dólar tenha saído do caixa.
Prejuízo que nasce de promessa valorizada
O caso tem um espelho no balanço de quem emprestou. A Amazon, que aplicou US$ 8 bilhões em notas conversíveis da Anthropic entre 2023 e 2025, informou à SEC, no balanço do primeiro trimestre, que esses papéis valiam US$ 42,2 bilhões em 31 de março, depois de US$ 45,8 bilhões em dezembro, com ganhos ainda não realizados de US$ 36,3 bilhões.
O que pesa como perda na contabilidade da devedora aparece como valorização na contabilidade da credora, e os dois balanços estão certos ao mesmo tempo.
Caixa gasto em computação soma quase US$ 9 bilhões
Tirado o ajuste, sobra uma perda de cerca de US$ 8,7 bilhões, conta que fiz subtraindo os dois números divulgados e que o prospecto detalhará quando for público.
É ordem de grandeza parecida com a de computação e infraestrutura, que consumiu quase US$ 9 bilhões no semestre, mais que os US$ 7,3 bilhões de todo o ano de 2025. Em contrapartida, a receita saiu de US$ 1,1 bilhão para US$ 16,3 bilhões em um ano, e a empresa contou a investidores, na quarta-feira (14), que o terceiro trimestre fechou em US$ 16,8 bilhões, com lucro ajustado, margem operacional ajustada de 11% e US$ 1,70 de receita para cada dólar gasto em computação, sem que se saiba como a empresa define lucro ajustado.
Fatura de US$ 750 bilhões com poucas saídas
Na outra ponta da folha, a Anthropic pode comprometer até US$ 750 bilhões (R$ 3,79 trilhões) em computação nos próximos anos, número que inclui negociações ainda em curso, como a com a britânica Nscale, e que se soma a contratos já firmados com Google Cloud (US$ 111 bilhões), Amazon Web Services (US$ 110 bilhões) e Microsoft (US$ 31 bilhões).
Em setembro, a Reuters havia contado ao menos US$ 518 bilhões em compromissos assinados, e boa parte dessas obrigações vale mesmo que a demanda por Claude murche, porque não pode ser cancelada.
Para medir o tamanho do compromisso, US$ 750 bilhões equivalem a mais de 45 vezes a receita do semestre e a pouco mais de onze anos de faturamento, se o ritmo do terceiro trimestre, de US$ 67 bilhões ao ano, for mantido.
À empresa basta que a receita cresça mais depressa do que as parcelas vencem, e é nessa corrida que os investidores se dividem, pois parte deles já se decepcionou com a desaceleração entre o segundo e o terceiro trimestres, de um salto de 147% para 45%.
Prejuízo de papel e fatura real chegam juntos em novembro
A estreia em bolsa, com valor-alvo acima de US$ 2 trilhões, deve ser apresentada a investidores a partir da semana de segunda-feira (9), em novembro, de olho em negociar antes do feriado de Ação de Graças, na quinta-feira (26).
Em agosto, quando esta coluna levou aos leitores a conta da Fortune sobre o lucro que um valor desses exigiria, o debate era quanto a Anthropic precisaria ganhar para merecer o preço. O prospecto acrescenta a outra metade da folha, o quanto ela já prometeu pagar.
O rascunho, aliás, reserva 80 de suas 261 páginas a fatores de risco e apenas 48 à descrição do negócio, proporção que ajuda a entender por que o prejuízo de papel, ao menos esse, é o menor dos assuntos que a empresa terá de explicar a Wall Street.
De volta à realidade
Para não perdermos o senso de realidade: Empresas de inteligência artificial falam em investimento da ordem de bilhões e trilhões, que quando repetidos muitas vezes, acabam sendo naturalizado. Mas para se ter uma ideia, se o investimento de US$ 750 bilhões for realidade, ele se equivaleria ao PIB da Argentina, o 23º maior do mundo. Além disso, se o desejo de Amodei se converter em realidade e a empresa for avaliada em US$ 2 trilhões, ficaria no mesmo patamar da Espanha.
Elaboração Allan Ravagnani – Times Brasil | CNBC
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