
O presidente reacionário da Colômbia, Abelardo De La Espriella, ordenou às forças de repressão do país uma “ofensiva total” contra o Exército de Libertação Nacional (ELN) e as dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) em Arauca, na fronteira com a Venezuela, ao término de uma reunião do Conselho de Segurança em 19 de outubro. A medida inclui a transferência de presos para penitenciárias de alta segurança e o reforço militar na fronteira, em meio ao aprofundamento da aliança contrainsurgente com o país Estados Unidos (EUA).
Ao detalhar as diretrizes repressivas adotadas após o Conselho de Segurança e a reunião regional denominada “Milagre das Regiões”, o chefete da burocracia estatal deu ordens ao diretor do Instituto Nacional Penitenciário e Carcerário (Inpec), coronel Daniel Gutiérrez, para remover os prisioneiros. De La Espriella declarou: “Dei uma instrução clara ao diretor do Inpec: transferir para fora de Arauca, para prisões de alta segurança e em conformidade com a lei, os cabecilhas e alvos de alto valor que se encontram detidos em Arauca”. O mandatário completou: “Nenhum desses bandidos das FARC ou do ELN que cometem crimes aqui permanecerá em Arauca, nem os extorsionários, porque continuam a cometer crimes da prisão”.
A estratégia empregada por De La Espriella combina o aumento das operações de inteligência e o reforço do controle nas fronteiras fluviais e terrestres, sob a justificativa de combate ao “contrabando e narcotráfico”, além de pressões sobre prefeitos e governadores para alinharem suas decisões aos objetivos repressivos do governo. O mandatário também invocou o recrutamento de menores para justificar a ofensiva. “Esses miseráveis narcoterroristas saberão, na era do Tigre, como a vontade política se materializa em ações concretas”, ameaçou. Ele reforçou: “Vamos atingir os cabecilhas desses grupos narcoterroristas, suas estruturas, sua logística e, claro, seu financiamento”.

Essa escalada militar aprofunda o alinhamento do velho Estado colombiano à guerra contrainsurgente articulada pelo imperialismo ianque na América Latina. Em 22 de setembro, no encontro da aliança militar e policial apelidada de “Escudo das Américas”, convocado em Nova York pelo canibal Donald Trump à margem da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o ministro das Relações Exteriores da Colômbia, Omar Bula, chancelou o pacote reacionário, alegando que “um país sem segurança não pode atrair investimentos, não pode atrair comércio”.
A declaração conjunta comprometeu os países signatários a coordenar sanções contra 24 organizações rotuladas de “narcoterroristas”. O ardil coloca sob o mesmo epíteto guerrilhas anti-imperialistas, como o ELN e dissidências das FARC, a organização revolucionária Partido Comunista do Peru (PCP, partido marxista-leninista-maoista militarizado), denominada pela reação de “Sendero Luminoso”, e grupos paramilitares ligados ao crime organizado, como o Clã do Golfo, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). As medidas preveem congelamento de bens, restrições de vistos e responsabilização criminal por apoio material, conforme a legislação de cada país. O documento também prevê encaminhar à Organização dos Estados Americanos (OEA) um pedido para convocar o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). Em agosto, o secretário de Defesa ianque, Pete Hegseth, já havia anunciado a possibilidade de operações militares conjuntas contra o ELN e remanescentes das FARC.

Relatório da Fundação Pares e a falência da ‘paz total’
A extensão do conflito foi exposta no relatório “Tempos violentos: radiografia do poder armado na Colômbia”, publicado em setembro pela Fundação Paz e Reconciliação (Pares). O estudo registra a presença de grupos armados em 527 municípios em 2026, contra 428 em 2022. Esse total abrange organizações de naturezas distintas, cujas trajetórias também diferem.
O diagnóstico evidencia a falência da demagógica política de “paz total” do governo oportunista de Gustavo Petro, que não pôs fim à violência das classes dominantes reacionárias – grande burguesia e latifúndio agroexportador. Isso não autoriza, porém, colocar no mesmo balaio a resistência armada de base camponesa e as máquinas paramilitares de extermínio. A classificação geral de “grupos armados” não apaga o caráter político da luta contra o velho Estado e a dominação imperialista, nem converte a expansão dos paramilitares em avanço da luta popular.

O relatório registra o Exército Gaitanista da Colômbia (Clã do Golfo) – máquina de extermínio paramilitar de extrema direita vinculada ao latifúndio – como a organização com maior cobertura territorial: 301 municípios em 2026, contra 241 em 2022. Entre as frações dissidentes das FARC, o Estado–Maior Central (EMC), dirigido por Iván Mordisco, aparece em 134 municípios, e o Estado–Maior dos Blocos e Frentes (EMBF), de Calarcá, em 103. Já o ELN passou de 183 municípios em 2022 para 150 em 2025, com recomposição para 156 em 2026.
A intensificação do conflito cobrou um pesado tributo das massas pobres. O relatório registra 481 combates entre as forças de repressão e grupos armados em 2025, contra 249 em 2023. As ações classificadas como “terroristas” pelo Ministério da Defesa subiram de 742 em 2022 para 1.398 em 2025. Nos registros de deslocamento forçado, foram contabilizados 311.681 eventos em 2025; no confinamento, 73.091 em 2024, quando comunidades ficaram impedidas de circular, trabalhar e se abastecer. Esses registros não equivalem, necessariamente, ao número de pessoas distintas atingidas.
Em 2025, 85% dos assassinatos de dirigentes populares ocorreram em municípios com presença confirmada de grupos armados. A concentração desses crimes expõe a violência imposta às massas nas regiões em disputa. Em áreas sob domínio paramilitar, o controle da vida local se exerce por ameaças, extorsões, expulsões e assassinatos, oprimindo camponeses, indígenas e trabalhadores.
Ações armadas do ELN e ampliação do uso de drones
Apesar do recuo territorial em relação a 2022, o ELN mantém ações contra as forças de repressão e ampliou o emprego de drones com explosivos. A Fundação Ideias para a Paz (FIP), com base nos registros das forças militares e policiais, contabiliza 716 ataques com esses aparelhos entre 2023 e 1º de outubro de 2026, dos quais 318 ocorreram em 2026. O ELN passou de 36 ataques em 2025 para 132 no período de 2026 analisado, mais que triplicando seu uso. No acumulado desde 2023, foram atribuídas à organização 168 ações, cerca de 23% do total; ao EMC, 512, aproximadamente 72%.
O mesmo levantamento registra, desde 2024, 55 civis feridos e seis mortos em ataques com drones, considerando o conjunto dos grupos armados. A ampliação dessa forma de combate também tem consequências para as comunidades nas zonas do conflito.
As recentes investidas guerrilheiras atingiram as forças de repressão em diversos departamentos. Na noite de 4 de setembro, o Cantão Militar de Trapiche, em Ocaña, no departamento de Norte de Santander, foi atacado com drones. O ataque e os combates posteriores deixaram três militares mortos – o capitão Marco David Pirajón Montezuma e os soldados Joel Alberto Jiménez Jaramillo e Jhon Carlos Marrugo Manjarrez. Após o golpe à retaguarda militar, De La Espriella publicou ameaças no X: “Ao ELN, digo com absoluta clareza: por cada policial ou soldado que assassinarem, farei cair sobre vocês todo o peso e toda a força legítima do Estado”.

Em San José del Palmar, departamento do Chocó, um ataque com drones em 14 de outubro deixou nove integrantes do 15º Batalhão de Engenheiros Militares feridos. O Exército atribuiu preliminarmente a ação à Frente Ernesto Che Guevara do ELN e anunciou a evacuação dos militares para atendimento em Medellín.
Em Arauquita, departamento de Arauca, um ataque com explosivos em 17 de outubro feriu o soldado Daniel Felipe Pinzón Serrano, do 59º Batalhão de Infantaria. Segundo a 18ª Brigada do Exército, a ação foi realizada pela Comissão Martha Elena Barón do ELN contra tropas em operação no setor de Puente Quinay. O militar foi removido para o Hospital San Vicente.
Na madrugada de 21 de outubro, a Delegacia de Polícia de Pelaya, em Cesar, foi atingida por explosivos lançados de drones, deixando seis agentes feridos e danos no prédio. A polícia apontou preliminarmente a Frente Camilo Torres Restrepo do ELN, sem confirmar a autoria do ataque.
Ataques à Glencore e resistência à capitulação
Além dos confrontos contra a caserna, ataques à infraestrutura extrativista atingiram a ferrovia da mina de carvão de Cerrejón, em La Guajira, operada pela corporação imperialista Glencore. Em 8 de setembro, explosões danificaram os trilhos e vagões em Uribia. Na noite de 22 de setembro, outro ataque atingiu um trem que seguia vazio em direção à mina. A companhia informou que esse era o sexto ataque do ano contra sua infraestrutura e que o pessoal havia sido evacuado preventivamente. O Exército atribuiu a ação de 22 de setembro ao ELN e deslocou tropas do Batalhão de Defesa Antiaérea da 10ª Brigada para guardar os trilhos, pondo o aparato militar a serviço da proteção do enclave imperialista.
A resistência do ELN contrasta com a capitulação da antiga direção das FARC, cujo acordo de desarmamento de 2016 não liquidou o latifúndio na Colômbia. Em entrevista publicada pelo jornal The Guardian em 7 de agosto, Yerson, comandante da Frente de Guerra Ocidental do ELN, afirmou: “As FARC se renderam sem receber nada em troca”. Sobre a hostilidade de Washington, declarou: “A questão da culpa não importa para o EUA. O que importa para eles são os interesses”. Ao se apresentar como integrante da única guerrilha com princípios políticos ainda em armas, acrescentou que “sempre seremos algo que eles querem destruir”.
A experiência das FARC, de base camponesa combativa e direção revisionista, mostra que a resistência armada, por si só, sob concepções foquistas e sem direção proletária, não assegura o rumo da luta. Levar a libertação nacional até o fim exige a constituição da vanguarda comunista, apoiada na aliança operário-camponesa, capaz de conquistar a direção do processo e impedir que o sacrifício das massas volte a servir de moeda de troca nas negociações com o velho Estado.

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