
Pacífico atinge patamar de El Niño muito forte enquanto novo estudo da Nature mostra que ondas de calor marinhas no Atlântico avançam em direção aos trópicos. Os dois sinais reforçam a mesma urgência climática para o oceano.
Estamos vivendo em um mundo cada vez mais quente e é o oceano que tem absorvido grande parte desse excesso de calor, permitindo que o planeta permaneça habitável. As consequências dessa absorção influenciam as correntes marinhas, que, por sua vez, influenciam as estações do ano e a vida debaixo d’água e em terra. Quando a água do mar aquece demais em uma região específica no Oceano Pacífico Equatorial, temos um cenário de Super El Niño e, inevitavelmente (e infelizmente), uma série de mudanças ambientais se torna o centro das atenções.
Este local no Pacífico Equatorial usado como referência para acompanhar o El Niño é chamado de região Niño, 3.4, que em Agosto de 2026 ficou, em média, 1,8°C acima do esperado para o período. Diante disso, em setembro de 2026, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA:
Estimou-se em mais de 90% a chance de o El Niño atingir intensidade muito forte durante o outono e o inverno de 2026–2027 no Hemisfério Norte.
Como medir a intensidade de um El Niño?
Para medir a intensidade do fenômeno, a NOAA observa a média das temperaturas ao longo de três meses. Desde 2026, a agência também passou a usar o RONI, um índice que leva em conta o aquecimento geral dos oceanos tropicais. Assim, é possível diferenciar melhor o efeito natural do El Niño de um oceano que já está mais quente por causa da crise climática.
Essa mudança na forma de medir o El Niño diz muito sobre o momento climático que estamos vivendo. O fenômeno é natural e recorrente, mas acontece hoje sobre um oceano que já acumula mais calor devido ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera, absorvido pela água do mar. Separar esses dois sinais ajuda a entender o que pertence às oscilações naturais do El Niño e o que revela uma transformação mais profunda e persistente dos oceanos.
O calor está mudando de lugar no Atlântico

Enquanto os olhos se voltam para o fortalecimento do El Niño no Pacífico, o Oceano Atlântico também dá sinais de uma transformação profunda e silenciosa que acontece há pelo menos quatro décadas. Um estudo publicado em maio na revista npj Climate and Atmospheric Science, do grupo Nature, observou a direção das ondas de calor marinhas por 41 anos (1982 a 2022) e identificou que elas estão migrando em direção à Linha do Equador.
O movimento ocorre tanto no oceano Atlântico Norte quanto no Atlântico Sul, a uma velocidade média de aproximadamente 1 grau de latitude por década. Em quatro décadas, isso representa um deslocamento de cerca de 440 quilômetros. Os pesquisadores também encontraram um crescimento proporcionalmente maior das ondas de calor marinhas nas regiões tropicais, que já convivem naturalmente com temperaturas elevadas.
Isso significa que ondas de calor estão aumentando em todo o Atlântico, mas nas regiões tropicais esse aumento é muito mais rápido.
É como se a região do Atlântico que banha a costa africana, que já é naturalmente propensa a ondas de calor, puxasse ainda mais o calor para essa área, um fenômeno que mexe com as grandes correntes oceânicas do Atlântico como um todo, incluindo a área da Corrente do Brasil e da Confluência Brasil–Malvinas. Isso mostra que não existem fronteiras para mudanças de larga escala no oceano e que as consequências podem chegar à costa brasileira.
El Niño se desenvolve no oceano Pacífico, mas seus efeitos não ficam restritos a ele. O Atlântico também está mudando, e essas mudanças interferem na circulação da atmosfera e na distribuição de calor e umidade pelo planeta. Por isso, olhar para as duas bacias oceânicas ao mesmo tempo é importante para entender como o oceano conecta todo o planeta e como o El Niño pode contribuir para a ocorrência de eventos extremos e diferentes impactos pelo Brasil.,
Afirma a porta-voz de oceanos no Greenpeace Brasil, Bruna Canal.
El Niño explica o avanço dessas ondas de calor?
A conexão entre as duas notícias pode levar à impressão de que o avanço das ondas de calor marinhas no Atlântico seja consequência direta do aquecimento das águas no Pacífico, que caracteriza a intensidade do El Niño. Os pesquisadores do estudo analisaram a influência do ENSO — sistema climático do qual El Niño e La Niña fazem parte — e concluíram que variações naturais do clima podem mudar as condições do oceano de um ano para outro, mas não explicam por que as ondas de calor marinhas vêm se deslocando em direção ao Equador há quatro décadas. Para entender o que está por trás dessa mudança, os pesquisadores compararam os dados observados com diferentes simulações climáticas.
O deslocamento apareceu nos cenários que incluíam o aumento dos gases de efeito estufa provocado pelas atividades humanas, mas não naqueles que consideravam apenas fatores naturais.
Isso indica que o aquecimento causado pelas emissões humanas é o principal responsável pela tendência observada no Atlântico. O El Niño ajuda, portanto, a compreender parte das oscilações de curto prazo que acontecem no oceano. Já o avanço persistente dos extremos de calor sobre regiões tropicais do Atlântico aponta para uma mudança de longo prazo relacionada ao aquecimento causado pelas atividades humanas. Esta é também a principal causa de eventos de El Niño cada vez mais intensos.
Isto é, um fenômeno não explica necessariamente o outro, mas estão sendo intensificados pelo mesmo motivo: a queima de combustíveis fósseis.
Por que o Atlântico tropical está retendo mais calor?
O estudo também investigou o que está acontecendo na interação entre oceano e atmosfera para favorecer esse processo. Uma das mudanças identificadas é o enfraquecimento dos ventos em partes do Atlântico tropical. Com ventos mais fracos, diminui também a ressurgência, processo pelo qual águas mais frias das profundezas são empurradas para a superfície e ajudam a regular sua temperatura e a distribuição de nutrientes na água do mar.
Os pesquisadores observaram ainda alterações na relação entre temperatura da superfície do mar, pressão atmosférica, nuvens e radiação de onda longa. Em conjunto, esses processos podem reduzir a perda de calor pela superfície e favorecer o aquecimento das águas tropicais. O resultado é uma menor capacidade de resfriamento justamente em regiões oceânicas que já apresentam temperaturas naturalmente elevadas.
Entre os principais resultados do estudo estão:
- cerca de 1° de latitude por década de deslocamento das ondas de calor marinhas em direção à Linha do Equador;
- crescimento proporcionalmente maior desses eventos nas regiões tropicais do Atlântico;
- enfraquecimento dos ventos e da ressurgência, reduzindo a chegada de águas frias à superfície;
- mudanças nas interações entre oceano, atmosfera, nuvens e radiação, favorecendo a retenção de calor;
- aquecimento provocado pelos gases de efeito estufa como principal influência sobre a tendência de longo prazo observada.
Esses fenômenos oceanográficos evidenciam um oceano sem fronteiras, com processos físicos, quimícos e biológicos complexos que alteram a saúde do ambiente marinho, perto ou longe da costa.
Mais calor onde a vida já enfrenta limites
Ondas de calor marinhas são períodos persistentes em que a temperatura do oceano permanece muito acima do esperado para determinada região e época do ano. Ou seja, estamos falando de extremos prolongados de temperatura, capazes de alterar as condições às quais espécies e ecossistemas estão adaptados.
Uma maior frequência de ondas de calor nas regiões tropicais aumenta a pressão sobre ecossistemas que já têm convivido com temperaturas elevadas.
Sistemas recifais, baleias, peixes e inúmeros outros organismos dependem de condições ambientais específicas para a alimentação, a reprodução e a sobrevivência. Quando o calor permanece acima desses limites por períodos prolongados, os impactos podem atingir toda a cadeia marinha.
O próprio estudo relaciona a maior exposição às ondas de calor marinhas a riscos para a biodiversidade e todo o ecossistema marinho. Essas mudanças também atingem populações costeiras que dependem de mares saudáveis para alimentação, renda e manutenção de seus modos de vida.
Proteger os oceanos é enfrentar a crise climática
O Super El Niño de 2026 é um fenômeno natural que ganha força em um planeta profundamente alterado pelo aquecimento global. Essas transformações reforçam a urgência de enfrentar as causas da crise climática. Continuar investindo na indústria fóssil significa adicionar ainda mais calor a um sistema que regula o clima do planeta, abriga uma biodiversidade extraordinária e sustenta comunidades que dependem diretamente do mar.
Reduzir a dependência de combustíveis fósseis, proteger ecossistemas costeiros e marinhos e ampliar a proteção de áreas importantes para a biodiversidade são medidas fundamentais para diminuir as pressões sobre os oceanos e fortalecer sua capacidade de responder aos impactos que já estão acontecendo.
Estamos rumo a 300 mil assinaturas pela proteção dos oceanos. Junte-se a nós e ajude a cobrar medidas efetivas contra a crise climática.
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