
O estudante de Medicina Bruno Hashimura San Juliano, de 23 anos, foi morto a tiros na manhã de 30 de setembro, em Taubaté, após uma discussão de trânsito com o bombeiro militar Marcos Paulo Fujarra de Oliveira, de 28 anos. Bruno seguia para a Universidade de Taubaté (Unitau) quando foi baleado na Avenida Professor Walter Thaumaturgo, conhecida como Avenida do Povo. Ele chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos. A perícia apontou quatro disparos que atingiram regiões como pescoço, tórax e braço.
Segundo a conclusão do inquérito da Polícia Civil, após o desentendimento no trânsito, Fujarra deixou seu veículo, foi até o carro de Bruno e golpeou o vidro do lado do motorista até quebrá-lo. Em seguida, efetuou os disparos. A investigação afastou a tese de legítima defesa apresentada inicialmente pelo bombeiro.
A defesa sustenta que Fujarra teria agido em legítima defesa ao interpretar um objeto nas mãos do estudante como uma arma. Um canivete foi apreendido no carro de Bruno, mas nenhuma arma de fogo foi encontrada. Testemunhos e imagens analisados durante o inquérito apontaram que o bombeiro tomou a iniciativa de deixar o próprio veículo e se aproximar do automóvel do estudante.
Fujarra foi preso em flagrante, mas recebeu liberdade provisória em audiência de custódia. Após recurso do Ministério Público de São Paulo (MPSP), o Tribunal de Justiça decretou sua prisão preventiva. O bombeiro foi preso em 7 de outubro e encaminhado ao Presídio Militar Romão Gomes. No mesmo dia, o MPSP apresentou denúncia e pediu que ele seja submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri.
O acusado é soldado de 1ª classe da Polícia Militar de São Paulo e integra o Corpo de Bombeiros. Na data do assassinato, estava afastado das funções por licença não remunerada desde maio.

‘No dia do assassinato, ele teria estourado o vidro do estudante’
Após o assassinato de Bruno, vieram a público pelo menos duas ocorrências anteriores envolvendo Fujarra em conflitos de trânsito, registradas em 2019 e 2021. Ambas foram arquivadas. Em uma delas, houve relato de exibição de arma durante o desentendimento.
Para compreender como o caso é percebido entre moradores e estudantes de Taubaté, AND conversou com um conhecido de Bruno, que prefere permanecer anônimo e também reside na cidade e estuda na Unitau.
Sobre as circunstâncias que antecederam o assassinato, o entrevistado afirmou que havia informações circulando sobre um histórico anterior de violência do bombeiro, mas ressaltou que parte delas ainda precisava ser confirmada.
“O bombeiro já tinha um histórico de violência no geral, há de se confirmar. Porém, suspeitam que, além dos boletins contra ele por brigas de trânsito, ele também era um potencial feminicida.”
A suspeita mencionada pelo entrevistado de que Fujarra seria um “potencial feminicida” não pôde ser comprovada nas fontes consultadas. As ocorrências anteriores relacionadas a conflitos de trânsito, contudo, foram confirmadas.
Ao tratar diretamente do assassinato de Bruno, o estudante destacou que a versão apresentada inicialmente pelo bombeiro passou a ser contrariada pelos elementos reunidos na investigação.
“Sobre o assassinato em si, desde o começo ele relatava legítima defesa e falava que o Hashimura estava armado com uma faca ou canivete. A investigação, porém, passou a contestar essa versão.”
Segundo o entrevistado, as informações que começaram a surgir apontavam que o próprio bombeiro teria provocado o confronto direto: “Segundo as informações divulgadas, o próprio bombeiro teria quebrado o vidro do veículo de Bruno antes dos disparos. No dia do assassinato, ele teria estourado o vidro do estudante e atirado várias vezes contra ele.”
A fala encontra respaldo em pontos centrais do inquérito. A Polícia Civil concluiu que Fujarra deixou o próprio veículo, aproximou-se do automóvel de Bruno e rompeu o vidro antes de efetuar os disparos. Um canivete foi apreendido no carro da vítima, mas nenhuma arma de fogo foi encontrada.
‘Para matar e amedrontar sua população, a polícia atende na hora’
Perguntado sobre o que o assassinato revela acerca da situação vivida na região, o entrevistado relacionou o caso à atuação dos agentes militares.
“Esse assassinato revela que há um despreparo gigantesco de alguns agentes militares e só mostra que a segurança pública é muito falha na hora de servir e proteger seus cidadãos.”
Para ele, existe um contraste entre a função atribuída oficialmente às corporações militares e a forma como seus agentes atuam contra a população.
“Se houvesse, de fato, um sentimento de empatia e de justiça pelas forças militares, nada disso teria acontecido. Para matar e amedrontar sua população, a polícia atende na hora.”
O entrevistado também relatou uma percepção negativa sobre a atuação do próprio Corpo de Bombeiros na cidade: “E um adendo, nem os bombeiros aqui querem fazer seu serviço. Meu pai confirmou que muitas vezes o Corpo de Bombeiros de Taubaté não cumpriu com seus serviços quando solicitado, demorando para responder às emergências.”
A morte de Bruno possui uma particularidade importante: o autor dos disparos era integrante de uma corporação militar e tinha acesso legal ao porte de arma em razão dessa condição, ainda que estivesse afastado do serviço quando ocorreu o assassinato. A discussão de trânsito terminou depois que Fujarra saiu do próprio veículo, caminhou até o carro da vítima, rompeu o vidro e efetuou quatro disparos.

‘Era um pai muito presente e muito amado pela esposa’
Questionado sobre o que gostaria que as pessoas soubessem de Bruno para além das notícias sobre o assassinato, o entrevistado afirmou não ter convivido intimamente com o estudante, mas recuperou relatos de pessoas próximas.
“Eu pessoalmente não conheci o rapaz de forma tão íntima, mas, sabendo de companheiros dele, gostaria que falassem que Bruno Hashimura era um colega calmo, que nunca se irritaria numa situação acidental em trânsito, que era um pai muito presente e muito amado pela esposa, que era um ser humano batalhador, trabalhador e dedicado tanto aos estudos quanto ao trabalho.”
Bruno cursava o quarto semestre de Medicina na Unitau e deixou uma companheira e um filho de dois anos. Após sua morte, estudantes e integrantes da comunidade acadêmica realizaram uma vigília em sua homenagem. A universidade também suspendeu as aulas do curso de Medicina nos dias seguintes ao assassinato.
Violência das forças de repressão também ocorre fora do serviço
O assassinato de Bruno se soma a um quadro em que a violência praticada por integrantes das forças de repressão também se manifesta fora do horário de serviço. Dados do Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), do MPSP, apontam que policiais fora de serviço mataram 33 pessoas em São Paulo somente entre janeiro e março de 2026, contra 29 no mesmo período de 2025. Entre policiais militares, foram 29 mortes provocadas por agentes fora de serviço no primeiro trimestre deste ano.
O número se soma à elevada letalidade das forças policiais paulistas: em 2025, 834 pessoas foram mortas por policiais no estado. No caso de Taubaté, uma discussão cotidiana no trânsito terminou com quatro disparos efetuados por um bombeiro militar contra um jovem estudante que estava a caminho da universidade.

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