

No pleito decisivo à Presidência de 2022, o então candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, alcançou um verdadeiro “milagre” eleitoral, segundo o cientista político Rodrigo Mahlmeister, pesquisador da Duke University, na Carolina do Norte (EUA).
Depois da disputa apertada no primeiro turno — cuja diferença fora de 6,1 milhões de votos —, ele conseguiu angariar algo como 7,1 milhões de novos eleitores, sem que seu oponente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), acompanhasse seu ritmo, somando 3 milhões de votos a mais.
Bolsonaro elevou seus votos em quase 14% entre os dois turnos, enquanto Lula cresceu só pouco mais de 5%. É o movimento que a campanha do petista almeja fazer agora.
Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno, no domingo (4/10), por 47,03%. Foram dados a ele pouco mais de 56,1 milhões de votos. Lula, por sua vez, teve 45,1%, ou 53,8 milhões de eleitores.
Analistas ouvidos pela BBC News Brasil ao longo desta semana apontam, porém, que essa tarefa será mais difícil para o atual presidente. Primeiro porque o senador do PL deverá receber quase a totalidade dos votos dos outros candidatos derrotados no começo da disputa — que estão mais à direita do que os concorrentes do pleito passado.
Em segundo lugar, porque diversos estudos apontam que os benefícios sociais que Jair Bolsonaro estendeu e até criou, às vésperas de 2022, tiveram impactos eleitorais mais significativos nos resultados da corrida daquele ano do que as medidas adotadas pelo governo Lula agora, como reajustes no Bolsa Família, por exemplo.
Além disso, o petista viu parte da sua base eleitoral no Nordeste, que lhe deu a vitória na eleição passada, migrar, justamente, para a candidatura de Flávio Bolsonaro. A região, de certa forma, se tornou uma espécie de “nova Minas Gerais” para as estratégias eleitorais. Tradicionalmente o candidato à Presidência que vence a eleição em Minas Gerais acaba eleito.
Por fim, especialistas dizem que, se a campanha de Lula almeja convocar eleitores que não foram às urnas no primeiro turno, dificilmente ela terá sucesso, já que trata-se de pessoas de baixa renda para quem a participação na eleição é mais custosa do que ficar em casa.
Mahlmeister usa a metáfora de uma maratona para ilustrar esse fenômeno: em 2022, Lula entrou no segundo turno ao lado da linha de chegada.
“Bastava um passo adiante e ele vencia”, diz.
Foi o que aconteceu. O petista teve 48,43% dos votos no primeiro turno daquele pleito, enquanto Jair Bolsonaro ficou com 43,20%.
O candidato do PL, então, tinha que acelerar o passo para alcançar Lula e, em paralelo, precisava impedi-lo de se mexer. Era a sua única chance de ganhar a corrida.
“Como vimos, ele quase conseguiu. A virada não aconteceu por muito pouco”, prossegue o cientista político, lembrando da diferença final, de 2,1 milhões de votos no segundo turno, que foi a mais apertada entre todas as eleições presidenciais desde a redemocratização.
Olhando eleições passadas, os cientistas políticos costumam ver as raras chances de uma virada no segundo turno apenas em casos onde os candidatos vitoriosos no primeiro saíram com margens mínimas de diferença. É por isso que o sprint de Jair Bolsonaro, em 2022, chama a atenção.
“Foi uma façanha que sequer foi totalmente explicada”, continua Mahlmeister.
Na eleição de 2018, por exemplo, Fernando Haddad (PT) melhorou muito sua votação entre um turno e outro (ganhou 15,6 milhões de votos, o que significou uma alta de 50%). Porém, não foi suficiente para derrotar Jair Bolsonaro, à época no PSC, que vinha de um desempenho positivo no primeiro turno e ainda ganhou mais 8,5 milhões de votos no segundo (um aumento de 17,2%).
A cena já tinha acontecido, inclusive, no pleito anterior, em 2014, com Aécio Neves (PSDB): ainda que ele tenha crescido seu eleitorado em significativos 46,2% no segundo turno, não conseguiu chegar na então presidente Dilma Rousseff (PT), porque ela também subiu, ainda que em menor intensidade, no mesmo período (25,9%).
Essa diferença dos ritmos de Jair Bolsonaro e de Lula na reta final da eleição de 2022 foi tão grande que o cientista político Murillo Aragão — fundador da consultoria Arko Advice, em Brasília — acredita que não dá para dizer que o atual presidente foi, politicamente, o vencedor daquele pleito.
“Ele não ganhou ali. Foi o Bolsonaro quem perdeu”, diz. (Com informações da BBC News)
https://www.osul.com.br/como-jair-bolsonaro-quase-conseguiu-em-2022-a-virada-que-lula-almeja-no-2o-turno/
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