
Com texto da escritora e poeta Rachel Gutiérrez e direção artística de Sergio Fonta, a nova montagem de Palavras de Mulher, em cartaz até o dia 30 de outubro, sempre às quintas e sextas, às 19h, no palco do Teatro Gláucio Gil, Praça Cardeal Arcoverde, em Copacabana, propõe uma celebração da literatura por meio das vozes de quatro grandes autoras: Carmen da Silva (Beth Lamas), Eneida de Moraes (Izabella Bicalho), Hilda Hilst (Helga Nemetik) e Clarice Lispector (Laura Proença). Palavras de Mulher é, na realidade, um convite à escuta, à leitura e à reflexão — um tributo à literatura feita por mulheres que ousaram pensar, escrever e transformar.
A dramaturgia parte de uma ideia original e poética: um encontro entre essas quatro mulheres em uma “Biblioteca do Paraíso”, onde compartilham pensamentos, memórias e inquietações sobre o universo feminino. O espetáculo é uma oportunidade de revisitar — ou descobrir — a força transformadora da escrita dessas autoras, cujas obras marcaram gerações e continuam a inspirar debates sobre o papel da mulher na sociedade.
A peça, dirigida por Sergio Fonta, também ator e dramaturgo, prega uma integração entre o real e o virtual, com figurinos de época assinados por Wanderley Gomes e trilha sonora que transita entre Claude Debussy e Chiquinha Gonzaga, selecionada por Rachel Gutiérrez. O público é convidado a se sentir como o quinto personagem desse encontro literário — uma presença íntima e cúmplice.
A equipe criativa reúne nomes de destaque das artes cênicas brasileiras, como Rachel Gutiérrez, nascida em Sant’Ana do Livramento, no Rio Grande do Sul, tradutora, escritora e pianista com formação clássica, autora de obras como Narcisismo e Poesia e O Feminismo é um Humanismo.
Empolgado com essa nova montagem, Sergio Fonta diz que a peça é, na realidade, um coração feminino, sem ser um rótulo ou um emblema político e, sim, um retrato de quatro mulheres diferenciadas, influentes e afluentes de uma alta literatura, que conversam sobre infância, juventude, maturidade e finitude. Elas são, segundo ele, a plataforma inicial e fundamental da peça Palavra de Mulher, mas não são apenas um retrato na parede, como no belo e dolorido poema de Carlos Drummond de Andrade: Palavra de Mulher é um retrato que se move e que emociona o público com as performances das quatro atrizes que brilham juntas e separadamente.
A autora, para elaborar a estrutura de sua dramaturgia, partiu de uma ideia original e inusitada: quatro mulheres exponenciais em suas atividades se encontram para tomar um drinque na biblioteca do… céu. Ou do paraíso. Ou do olimpo. Sim, elas já não habitam o nosso mundo. No entanto, habitam para sempre o nosso universo de ideias, sentimentos, conhecimentos e emoções. Não são mulheres quaisquer: elas são Clarice Lispector, Hilda Hilst, Carmen da Silva e Eneida. Muito bom vê-las e ouvi-las como a uma sinfonia que envolve o espectador com sua partitura não exatamente musical: uma partitura teatral. É o palco que se abre para o olhar e a atitude de quatro pessoas peculiares.
Palavra de Mulher, aos poucos, com perspicácia e sensibilidade, deixa fluir a obra daquelas figuras públicas, saudosas e queridas, oferecendo para a plateia uma verdadeira degustação literária que alcança o paladar do intelecto. Não pensem, contudo, que Palavra de Mulher é uma peça só para a elite. Não. É sofisticada, sim, em sua proposta, porém, recheada de sabedoria, de humor sutil e de profundidade, sem ser hermética. Quem nunca leu um dos livros daquelas personagens, poderá “ler”, no decorrer das cenas, as melhores páginas dessas escritoras de inegável talento.
No texto de Rachel Gutiérrez está apresentado – revelado – o mistério transcendente dos textos antológicos de Clarice, a força da poesia de Hilda, a inteligência e a essência da jornalista e feminista Carmen, a retidão e a ironia aguda da cronista e jornalista Eneida. Não é a mera descrição do trabalho de cada uma delas, nem um discurso pomposo sobre a importância – e que não é pouca – dessas personagens icônicas. O que se expõe, através dos diálogos, é um sólido painel a mostrar personagens que sabiam o que queriam e diziam o que queriam.
Em Palavra de Mulher, Gutiérrez traça um perfil seguro e claro de pessoas que atravessaram para a outra margem do rio e deixaram por aqui um lastro de consciência, de beleza, de refinamento. A peça, como comenta Fonta, é um mosaico iluminado da alma de quatro mulheres que fizeram história. E muitas e belas e saborosas histórias
Sergio Fonta, com mais de duas dezenas de espetáculos teatrais, além de várias novelas e séries em seu currículo, dentre as séries A Grande Família, Sítio do Picapau Amarelo, Você Decide, além de 11 episódios do Caso Verdade e das minisséries Rainha da vida, Na Rede de Intrigas e Mar de Palavras, diz que dirigir essa peça é um grande prazer, pois, além de conviver com quatro atrizes talentosas, resgata parte da obra de outras quatro grandes mulheres que marcaram épocas e que deixaram legados dos mais importantes e ricos.
Nos períodos em que não atua em televisão, Fonta participa ativamente da vida cultural carioca como escritor, curador e pesquisador, tendo recebido 13 premiações entre Teatro e Literatura. Foi presidente da Academia Carioca de Letras (2022–2025) e é membro-titular do PEN Clube do Brasil.
Laura Proença, filha de Miguel Proença, um dos mais conceituados pianistas do Brasil, formou-se na Casa das Artes de Laranjeiras. Indicada por Bibi Ferreira, participou da peça Fica Combinado Assim, de Consuelo de Castro. Em seguida, foi assistente de Bibi Ferreira em Only you. No teatro, atuou em espetáculos como Isadora Duncan – é dançando que a gente se aprende, de Aguinaldo Silva, com direção da mesma genial Bibi Ferreira; A Mulher do Candidato, direção de Cininha de Paula; e Dez encontros, dirigida por Wendell Bendelack. Seu primeiro personagem na TV foi na novela Duas Caras (TV Globo), de Agnaldo Silva. Atuou também em Cinquentinha, Sob Nova Direção, e no seriado Questão de Família.
Izabella Bicalho, com mais de 40 anos de carreira, foi indicada como Melhor Atriz pelos prêmios Shell, APTR, Cesgranrio, Contigo e Bibi Ferreira. Produziu e protagonizou o musical Gota D’água, com direção de João Fonseca. Estrelou em montagens de sucesso como: Tim Maia – o musical, Bilac Vê Estrelas, O Beijo no Asfalto – o musical, Era no Tempo do Rei e Sambra – 100 anos de samba. Foi dirigida por Miguel Falabella em South American Way e Império, e por Nei Matogrosso no emocionante musical Somos Irmãs. Na televisão, quando criança, encantou interpretando a Narizinho, no Sitio do Pica Pau Amarelo. Atuou nas novelas da Rede Globo Sangue Bom, Ti Ti Ti, Negócio da China, História de Amor, Pacto de Sangue, Roque Santeiro, Sétimo Sentido e Água Viva. Produziu e protagonizou o musicai Elizeth – A Divina.
Beth Lamas, além de atriz, formada pela CAL, em 1986, é também cantora, desde 1989. Atuou em Ai ai, Brasil, Samba Valente de Assis, Tia Zulmira e Nós e muitos outros espetáculos nos quais mostrou sua versatilidade como em Vianinha Conta o Último Combate do Homem Comum, com direção de Aderbal Freire Filho, e As Comadres, direção de Ariane Mnouchkine. Participou, como vocalista, das bandas Páginas 4, Alma Nua e Mulher de Branco, desenvolvendo pesquisa de repertório e apresentações no eixo Rio-São Paulo. Em 2003, produziu e estrelou o monólogo A verdadeira história de Beatriz Alzira, dirigida por Sandra Pêra, onde interpretava a música Fama que, no ano seguinte, se tornou tema da novela Celebridade.
Helga Nemetik, cantora, dubladora e cineasta, tem sua carreira firmada na televisão e no teatro musical. Dentre novelas, séries e realities, todos na Rede Globo, se destacou na novela Rock Story; na série Ilha de Ferro, como Luciano Pavarotti, no Show dos Famosos, vice-campeã do Popstar 2019 e fez parte do humorístico Zorra Total, por 10 anos. No teatro musical, tem mais de 25 espetáculos em seu currículo: Chaplin, o musical da Broadway; Cinderella, o musical da Broadway; Company, que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Prêmio Brasil Musical; e Beetlejuice, quando conquistou o prêmio Musical Rio, de melhor dupla em cena. Em 2024, Helga idealizou e atuou no espetáculo Não conta pra Ninguém, contemplado pelo edital de monólogos do Centro Cultural Fiesp e, no ano passado, também com esse solo, fez a circulação pelo interior do estado, a convite do Sesi-SP. Atualmente, está em cartaz com Fafá de Belém, o musical, onde interpreta a própria Fafá de Belém e foi indicada ao Prêmio Shell de melhor atriz. Sempre em atividade, estreou neste 2026, no cinema, como protagonista do longa-metragem A Miss, de Daniel Porto, e em O Advogado de Deus, de Wagner de Assis.
A temporada, no Gláucio Gil, disponibiliza acessibilidade em todas as sessões, incluindo tradução em libras, audiodescrição e equipe especializada para atender pessoas com deficiência física ou cognitiva. Há que se destacar os cenários de Danielly Ramos e a iluminação precisa de Gil Santos.
Rever Clarice Lispector, Carmen da Silva, Hilda Hilst e Eneida de Moraes, por meio das interpretações dessas quatro atrizes, é prazeroso. As artistas encarnam essas quatro grandes mulheres, de forma irretocável, com serenidade, brilho e desenvoltura.
Um belo e comovente espetáculo.
https://monitormercantil.com.br/no-glaucio-gil-lispector-hilst-eneida-e-carmen-em-palavras-de-mulher/
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