
Um grupo de estudiosos de SC, entre os quais estou incluída, acaba de anunciar que está atuando em uma pesquisa interdisciplinar denominada O Céu na Pedra: Ampulhetas Rupestres, Observação Solar e a Cosmografia do Peabiru no Litoral Catarinense.
Este trabalho novo investiga possíveis relações entre os gravados/entalhes rupestres famosos (as pedras das “Ampulhetas”, tidas como um dos símbolos culturais de Florianópolis), a observação solar feita tradicionalmente pelos indígenas guaranis e o milenar Caminho do Peabiru.
O índio frente ao Sol, tempo e paisagem
O estudo é liderado por Yu Tao, especialista em Arqueologia e Patrimônio Cultural (pós graduação tipo MBA) e médico MTC (Medicina Tradicional Chinesa), pós-doutorando na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e reúne conteúdos interdisciplinares da Arqueologia, Arqueoastronomia, Etno–História, Design e Cognição Visual somados a conhecimentos tradicionais guaranis referentes à orientação solar, ao tempo e à paisagem.
Atenção no desenho tipo J
Esclarece Yu Tao: “O ponto de partida da nova pesquisa são as gravuras rupestres (entalhadas em baixo relevo sem uso de ferramentas metálicas, técnica raríssima no Brasil e América pré-histórica) da chamada Tradição Litorânea Catarinense. Estas foram documentadas pela arqueóloga Fabiana Comerlato (tese de doutorado As representações rupestres do litoral de Santa Catarina, PUC-RS, 2005).”
Diz ainda ele: “Entre os diferentes tipos de grafismos encontrados, chama atenção o chamado tipo J, especialmente as figuras classificadas como ‘Ampulhetas’. Comerlato registrou 20 figuras desse tipo no litoral de S. Catarina. Sete delas encontram-se na região do costão do Santinho, em Florianópolis, distribuídas entre os sítios arqueológicos do Santinho e do Morro das Aranhas.”

Surge uma nova pergunta
Para o estudioso Yu Tao, a frequência deste tipo J e sua alta concentração na costa central catarinense conduzem a realizar um novo questionamento que amplia a pesquisa: “A recorrência dessas formas e sua distribuição regional levantaram uma nova pergunta: além de constituírem um padrão gráfico, poderiam essas gravuras estar relacionadas a formas ancestrais de observar e organizar o espaço e o tempo?”
Pajé guarani interpreta desenhos
Conforme Yu Tao, “um segundo eixo do trabalho envolve conhecimentos Guarani relacionados à observação solar”. De acordo com o especialista, “estudos etnoastronômicos mostram que a sombra, os pontos cardeais e os ciclos solares ocupam papel importante em diferentes práticas tradicionais de orientação e organização do tempo”.
Neste aspecto, a pesquisa incorpora a presença do pajé guarani Wanderley C. Moreira, Karai Yvydju Mirim.
Ele, que cursou Licenciatura Intercultural Indígena na UFSC (seu TCC Trabalho de Conclusão de Curso foi Calendário Cosmológico: os símbolos e principais constelações na visão guarani – SC) está participando da análise de alguns grafismos.
Neste sentido já apresentou conceitos relacionados à mudança dos ciclos do tempo, como o ara guydje (ano novo cosmológico).

Maneira indígena de pensar
“Essas interpretações contemporâneas não são utilizadas para afirmar que os Guarani atuais produziram as gravuras arqueológicas”, adverte Yu Tao, mas sim “como referência para compreender formas indígenas de pensar relações entre luz (do dia), direção, tempo e espaço”.
Aí entra o Peabiru
De acordo com ele “é justamente nesse ponto que a investigação começa a dialogar com o Caminho do Peabiru”. Este era um caminho indígena milenar na América do Sul que unia o oceano Atlântico ao Pacífico, desde o leste (sol nascente) até o oeste (sol poente).
Prossegue ele: “A jornalista e pesquisadora Rosana Bond, estudiosa da história e da cosmologia do Peabiru integra também o trabalho e contribui com a perspectiva segundo a qual o caminho pode ser compreendido, dentro de tradições associadas ao universo Guarani, não apenas como uma rota terrestre, mas também como um caminho relacionado ao Sol, à luz (do dia) e à orientação.”
“A partir dessa convergência surge uma questão mais ampla: o Peabiru teria conectado apenas territórios e populações ou também sistemas de conhecimento relacionados à orientação, ao tempo, ao céu e à paisagem?” – indaga o estudioso.

Ampulhetas simbolizam o Peabiru?
Embora haja grande coincidência no papel central do Sol entre as gravuras das pedras e o Caminho milenar peabiruano, esclarecemos (eu e Yu Tao) que “a pesquisa não afirma que as ‘Ampulhetas’ rupestres sejam representações diretas do Peabiru, nem que funcionassem necessariamente como calendários ou instrumentos astronômicos.”
Arte rupestre sob ampliação
O objetivo da nova pesquisa é construir e testar a seguinte hipótese: “Certos padrões presentes nas gravuras do litoral de SC podem ser compatíveis com princípios de observação solar e organização espaço-temporal conhecidos em tradições indígenas do sul da América do Sul?”, resume Yu Tao.
Para ele, essa abordagem “permite ampliar a discussão sobre a arte rupestre catarinense: talvez essas gravuras não devam ser observadas apenas como imagens isoladas sobre a pedra. É preciso investigar também sua relação com o horizonte, com a luz, com o movimento do Sol e com a paisagem onde foram produzidas”.
Patrimônio pouco entendido
Ele arremata expondo nossa intenção como pesquisadores: “A proposta não é apresentar uma interpretação definitiva, mas abrir uma nova linha de investigação sobre um patrimônio arqueológico ainda pouco compreendido e sobre as possíveis relações entre pedra, paisagem, conhecimento indígena e céu no litoral de Santa Catarina.”
Rosana Bond é escritora e jornalista, conselheira editorial de AND e autora de mais de 20 livros sobre conflitos na América Latina e a saga dos povos ameríndios. Entre seus livros mais conhecidos estão “Nicarágua: a bala na agulha” (1985), “Sendero luminoso: fogo nos Andes” (1991), “A civilização inca” (1993).

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