
Na tarde desta terça-feira, 6 de outubro, saindo do Rio de Janeiro com destino a Lavras, a estrada me fez passar por Barbacena e, mais do que passar, me deteve, de modo que a tarde inteira se consumiu dentro do que resta do hospital psiquiátrico, entre corredores, pátios e paredes que guardam, na espessura da cal e do silêncio, aquilo que a história oficial levou décadas para nomear. Saio de lá carregando memórias que não são minhas e que me tomaram como se fossem e uma perturbação que não se deixa resolver em indignação nem se acomoda em luto, porque o que vi não pertence apenas ao passado de um século que já foi, pertence também à pergunta sobre o que uma sociedade faz com os corpos que não consegue suportar, e essa pergunta, ao passar o portão, entrou comigo no carro.
O primeiro paciente deu entrada no Hospital Colônia em 12 de outubro de 1903, e a partir dali o lugar foi se tornando aquilo que Daniela Arbex chamou de Holocausto Brasileiro, com algo em torno de sessenta mil mortos, muitos deles sem diagnóstico psiquiátrico algum, epilépticos, alcoólatras, moças engravidadas pelos patrões, homens sem documento, gente despachada de trem por famílias e municípios que queriam se livrar de um incômodo. Dormiam sobre capim, bebiam água de esgoto, tomavam choques que derrubavam a rede elétrica da cidade e depois de mortos tinham os corpos vendidos a faculdades de medicina, de modo que a instituição extraía lucro até do último gesto da vida que tinha desfeito. Franco Basaglia esteve lá em 1979 e comparou o que viu a um campo de concentração, e quem passa por aquelas paredes entende que ele escolheu a comparação com precisão e não com exagero. Foucault descreveu o grande internamento como a operação pela qual uma época decide que o desvio deve ser retirado de circulação, e Goffman mostrou como a instituição total fabrica a docilidade de que depois diz precisar, mas nenhum dos dois me preparou para a escala doméstica daquilo, para o fato de que a engrenagem funcionou durante décadas com a colaboração discreta de gente comum.
Foram 122 anos até que, em 25 de maio de 2026, o último interno deixasse o hospital, e é essa data, a menos de cinco meses de hoje, que me impede de ler Barbacena como relíquia. As palavras que a legenda associa ao doutor Dário Faria Tavares, nascido em 1918 e morto em 1995, dizem que não se quer fazer tábua rasa da história e que a imagem tenebrosa do Colônia deve ser evocada justamente para ajudar a sepultar, de uma vez, junto com o fantasma das prisões, uma filosofia equivocada que não permitiu a recuperação de milhares de seres humanos, e que os hospitais psiquiátricos não podem mais ser uma coisa de louco. No alto do espaço há uma instalação de gaiolas com pássaros soltos e uma luz ao centro, e o que ela diz sem palavras é que a luz estava lá dentro o tempo todo, sufocada, e hoje está livre.
Faço essa visita no meio de uma semana em que o país acorda com o resultado de domingo. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos, numa noite em que a direita ampliou espaço no Senado e em governos estaduais importantes, e o PL elegeu 20 senadores, entre eles Michelle Bolsonaro, pelo Distrito Federal, e Carlos Bolsonaro, por Santa Catarina. Na Câmara a bancada do PL subiu para 121 deputados, 24 a mais que em 2022, e Nikolas Ferreira se tornou o deputado mais votado da história, com mais de 3,11 milhões de votos. A disputa presidencial está aberta, o segundo turno é em 25 de outubro, mas desde 1989 ninguém que ficou em segundo na primeira etapa conseguiu virar, e o próprio Flávio já chamou o resultado de fim da era do PT. Os números que raramente chegam à manchete são os que mais me lembram o vagão de Barbacena, porque os pretos e pardos eleitos caíram de 139 para 135, os indígenas de cinco para três, e 33,4 milhões de brasileiros nem foram votar, uma abstenção maior que a de 2022, o que equivale a dizer que a maioria que se anuncia se formou também com a ausência de quem costuma ser o alvo das políticas de contenção.
Não escrevo isso para dizer que alguém vai reabrir o portão de ferro, porque ninguém precisa fazê-lo para que a lógica de Barbacena volte. Ela volta pela burocracia, na portaria que troca o dinheiro do CAPS pelo do leito, no edital que financia a comunidade terapêutica com a verba que faltou ao cuidado em liberdade, no discurso de ordem e moralidade tradicional que aprende a chamar o desviante de problema a ser isolado em nome da maioria decente, e já vimos o pêndulo andar rápido assim na nota técnica de 2019, que voltou a dar dinheiro a hospital psiquiátrico e a aparelho de eletrochoque. A lei de 2001 começou a fechar essa porta e foi preciso esperar até maio de 2026 para que ela se fechasse de fato, e esse intervalo de um quarto de século mede quanto custa desfazer uma instituição e quão pouco custa refazê-la, sobretudo diante de um Congresso com a maior bancada conservadora em décadas e a possibilidade de uma Presidência alinhada a ele.
Fotografei os pássaros soltos e fotografei também as gaiolas, que continuam penduradas no teto, abertas, à vista de quem entra.
https://www.brasil247.com/blog/barbacena-os-passaros-soltos-e-a-gaiola-no-teto-para-onde-vai-a-liberdade/
ACERCA DEL CORRESPONSAL
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