
A campanha de Luiz Inácio (PT) decidiu pedir ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a cassação da chapa de Flávio Bolsonaro (PL), acusando a Meta de favorecer o candidato por meio de seus sistemas de recomendação e mecanismos de distribuição de conteúdo. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 19 de outubro, os advogados preparam uma ação de investigação judicial eleitoral por abuso do poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. A Meta é o monopólio ianque proprietário do Instagram, do Facebook e do WhatsApp.
As denúncias apontam para um problema que ultrapassa a disputa entre duas candidaturas. Está em questão o poder concentrado de um punhado de monopólios estrangeiros sobre os meios de comunicação utilizados diariamente por milhões de brasileiros. A Meta limitou-se a negar interferência eleitoral e afirma que os episódios tiveram causas distintas, envolvendo falhas técnicas, erros específicos e aplicação das regras eleitorais.

Restrições a Luiz Inácio e recomendações favoráveis a Flávio
Um dos episódios centrais envolve o perfil oficial de Luiz Inácio no Instagram. Em 9 de outubro, a conta ficou impossibilitada de impulsionar publicações do feed por quase 24 horas. Os anúncios antigos continuaram no ar, e a campanha ainda conseguia criar novos anúncios diretamente pelo gerenciador da plataforma, mas estava impedida de pagar para ampliar o alcance das publicações já feitas no perfil.
Nas conversas internas divulgadas pela Folha, funcionários da empresa reconheceram que a conta do presidente estava “limitada” em comparação à de Flávio Bolsonaro. Também reclamaram da demora dos engenheiros para resolver o problema.
Outra denúncia diz respeito ao WhatsApp. Ao pesquisar pelo canal “Exército de Lula”, usuários também recebiam recomendações do canal bolsonarista “Tropa do Flávio”. Segundo a reportagem, funcionários da Meta sabiam que essa recomendação ocorria, embora as regras eleitorais proibissem a recomendação algorítmica de canais de candidatos.
No Instagram, o perfil de Flávio também aparecia em recomendações de busca, enquanto outros candidatos não recebiam o mesmo tratamento. As mensagens internas indicavam ainda que a conta de Luiz Inácio não aparecia nem quando se procurava pelo nome exato de seu perfil.
Em sua resposta pública, a Meta distingue dois incidentes. Segundo a empresa, em 7 de outubro uma falha global afetou a contagem de visualizações de vídeos durante cerca de cinco horas, sem interromper sua distribuição. Já em 9 de outubro, outra falha, causada por uma atualização de código, teria impedido milhares de anunciantes de diferentes países de criar anúncios a partir de publicações do Instagram. A empresa sustenta que esse segundo problema também foi global e terminou nas primeiras horas do dia 10.
O TSE já havia determinado medidas para assegurar tratamento isonômico às candidaturas e corrigir problemas nas contas de anúncios de Luiz Inácio. Em decisão de 18 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze deu mais 24 horas para a Meta cumprir as exigências, sob pena de elevar a multa diária de R$ 500 mil para R$ 1 milhão. O magistrado criticou a apresentação de documentos descontextualizados e a fixação de prazos pela própria empresa.

Alcance, inteligência artificial e propaganda patronal
A denúncia preparada pela campanha petista também questiona a distribuição de conteúdos do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais apoiadores de Flávio Bolsonaro. Segundo os dados citados na representação, vídeos publicados por Nikolas alcançaram dezenas de milhões de visualizações, números considerados atípicos pelos autores.
Um dos exemplos apresentados compara o desempenho de um mesmo vídeo em duas plataformas. No TikTok, a publicação teria obtido 396,4 mil visualizações, enquanto no Instagram teria alcançado 56,1 milhões. A campanha também aponta que Flávio tinha menos seguidores que Luiz Inácio, mas apresentava médias superiores de interação e visualizações nos vídeos curtos. As disparidades são apresentadas como indícios; isoladamente, os números não comprovam manipulação deliberada.
As denúncias envolvendo inteligência artificial (IA) acrescentam outra dimensão ao problema. A campanha de Luiz Inácio afirma que ferramentas da Meta e o Grok, associado à plataforma X, produziram imagens de propaganda ligadas a Flávio e recusaram solicitações semelhantes relacionadas ao petista.
A Meta declarou ter proibido temporariamente a geração de imagens de candidatos para cumprir as regras eleitorais. Segundo a empresa, seus filtros bloqueavam os nomes dos concorrentes, mas uma lacuna permitia gerar imagens com comandos que combinavam “Flávio” ou “Luiz” com os respectivos números eleitorais. A empresa afirma ter corrigido o problema em 14 de outubro.
A representação também cita propaganda contra Luiz Inácio financiada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Segundo levantamento do Metrópoles, uma publicação de seu presidente, Paulo Skaf, contra o fim da escala 6 por 1 recebeu até R$ 7 mil em impulsionamento, pagos pela entidade patronal. Publicado em 7 de outubro e impulsionado até o dia 9, o vídeo alcançou mais de 1 milhão de usuários do Facebook e do Instagram. Skaf chamou a proposta de redução da jornada de “PEC Boca de Urna” e alegou que ela elevaria os preços.

Os monopólios digitais e a ingerência estrangeira
O poder da Meta não se resume à propriedade de aplicativos. O monopólio sediado no país Estados Unidos (EUA) administra infraestruturas de comunicação, reúne grandes volumes de dados e controla sistemas que selecionam, organizam e recomendam conteúdos a milhões de pessoas.
Essa concentração tem consequências para a vida das massas. Trabalhadores, estudantes, pequenos comerciantes e organizações populares utilizam esses serviços para conversar, trabalhar, divulgar reivindicações e acompanhar os acontecimentos. Decisões empresariais podem afetar a visibilidade de movimentos populares, organizações políticas e denúncias sociais.
Esse controle fornece aos monopólios ianques instrumentos de ingerência na vida política brasileira. As denúncias sobre a Meta incidem precisamente sobre esses mecanismos: a distribuição de anúncios, as recomendações de perfis e a geração de propaganda. Os usuários veem os resultados, mas não dispõem de meios para conhecer integralmente os critérios que determinam quais publicações ganham visibilidade e quais deixam de chegar ao público.
O governo Luiz Inácio apresenta a regulação das plataformas como enfrentamento às grandes empresas de tecnologia, enquanto permanece concentrado o controle sobre dados, comunicação e infraestrutura digital. Multas, acordos e disputas judiciais não alteram, por si, essa estrutura de domínio sobre meios de comunicação utilizados coletivamente pelas massas.

O medo como instrumento de disputa eleitoral
As plataformas também servem à exploração eleitoral do medo. A extrema direita recorre ao alarmismo e à disseminação de notícias falsas para atacar seus adversários e alimentar a reação. Em 19 de outubro, o TSE proibiu Nikolas Ferreira e Pablo Marçal de republicar conteúdos já considerados falsos pela corte, entre eles uma acusação sobre uso de drogas em manifestação pró-Luiz Inácio e falas do petista distorcidas para prejudicá-lo.
A campanha de Luiz Inácio também disputa apoio mobilizando o temor de uma vitória de Flávio Bolsonaro. A ameaça aos direitos democráticos é real, mas o oportunismo a explora para apresentar a reeleição do petista como única defesa possível, subordinando a resistência ao caminho eleitoral.
Para as massas, a defesa dos direitos democráticos não pode ser reduzida à propaganda de campanha ou à expectativa de que a vitória de determinado candidato resolva os problemas do País. Exige organização e mobilização independentes para enfrentar a ofensiva da extrema direita e a ingerência do imperialismo ianque.

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