
O canibal Donald Trump voltou a acusar de fraude a eleição presidencial brasileira, sem apresentar provas, durante um comício em Corpus Christi, no Texas, em 27 de outubro. A nova declaração alimenta a contestação bolsonarista ao resultado dois dias depois da derrota de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para Luiz Inácio (PT), enquanto o governo ianque assegura acolhimento ao senador que fugiu do Brasil.
Trump atacava o Partido Democrata e suas posições sobre mudanças nas regras eleitorais do país Estados Unidos (EUA) quando introduziu a comparação com a votação brasileira. “Embora o Brasil também esteja fazendo um bom trabalho nisso, não é?”, afirmou, ao acusar os adversários de fraudar eleições. Em seguida, acrescentou: “Eu não tomei partido”. O comício integra a campanha republicana para as eleições legislativas de 3 de novembro.
Na véspera, o mandatário ianque já havia lançado suspeitas sobre a apuração e a prorrogação do horário de votação. Naquela ocasião, disse gostar de Luiz Inácio e, questionado sobre eventuais providências, respondeu que governava o EUA, não o Brasil. A repetição da acusação no dia seguinte conserva o resultado eleitoral como pretexto para novas pressões contra o País.
A alegação de que não tomou partido contrasta com a atuação de sua administração. Reportagem da agência Reuters, baseada em dez funcionários e ex-funcionários do governo ianque, revelou que Darren Beattie e Ricardo Pita, do Departamento de Estado ianque, conduziram uma campanha para reconduzir o clã Bolsonaro à gerência do velho Estado. Entre as iniciativas estavam a pressão por sanções e a orientação para que diplomatas evitassem outros candidatos da direita que disputavam espaço com Flávio.
Agora, após a derrota presidencial, Washington mantém os ataques ao resultado e oferece proteção ao candidato bolsonarista: em 27 de outubro, um alto funcionário do Departamento de Estado confirmou que o órgão emitirá vistos para Flávio e seus familiares e permitirá sua entrada no EUA. A ingerência prossegue com o acolhimento de um dos principais articuladores da extrema direita brasileira.
Planalto preserva negociação com Washington
No mesmo dia, Luiz Inácio fez demagogia contra a interferência dos EUA e da Meta nas eleições, durante a comemoração de seu aniversário no Palácio da Alvorada. Classificou a saída de Flávio como vergonhosa, mas voltou a defender a pacificação: “ninguém é inimigo de ninguém na democracia”.
Seus assessores diplomáticos, segundo a CNN Brasil, mantêm como prioridade estabelecer uma “relação pragmática” com a Casa Branca, independentemente da presença dos Bolsonaro em território ianque. As negociações pretendidas abrangem as tarifas comerciais e a segurança pública, justamente uma das frentes da ingerência de Washington, que classificou “organizações criminosas” brasileiras como “terroristas”. O governo oportunista procura preservar o entendimento com a potência que interfere na política nacional e acolhe seu principal adversário eleitoral.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, foi ainda mais explícito ao minimizar as consequências da fuga para as relações bilaterais. “Não afeta nada”, declarou ao Metrópoles, na mesma comemoração em que Luiz Inácio “denunciou” (de boca) a interferência ianque.
A declaração sintetiza a política do oportunismo: enquanto Washington questiona o resultado das eleições, acolhe o candidato derrotado e mantém instrumentos de chantagem contra o Brasil, o Planalto procura preservar o entendimento com a potência agressora. A demagogia contra a ingerência convive, assim, com a disposição de negociar justamente nas áreas estratégicas sobre as quais os ianques pretendem ampliar seu domínio. Mas a questão decisiva não é se Trump aceita negociar, e sim quais concessões pretende arrancar e qual preço o governo de Luiz Inácio está disposto a pagar pela chamada “pacificação”.
A derrota de Flávio Bolsonaro não eliminou os objetivos do imperialismo ianque. Washington pode procurar obtê-los por outra via: explorar a desestabilização política e a chantagem econômica para impor ao próprio governo petista concessões sobre riquezas minerais, relações comerciais com a China e segurança nacional. O perigo, portanto, é que o programa de submissão que Trump pretendia impor por intermédio do bolsonarismo seja executado, no essencial, pelo governo que o derrotou nas urnas. Eis a contradição que o oportunismo procura encobrir sob o nome de “pragmatismo”: se, para garantir sua sobrevivência política, Luiz Inácio aceitar sacrificar a soberania nacional em nome da conciliação, terá transformado a vitória eleitoral contra Flávio em uma derrota para os interesses nacionais, permitindo que Washington obtenha pelas mãos da falsa esquerda aquilo que pretendia impor pelas mãos da extrema direita.

ACERCA DEL CORRESPONSAL
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