
Rio – Sempre achei que pobre e rico reconheciam seus lugares. Até ver, num futuro distópico, um pobre negociando com o patrão:
– O senhor me chamou, patrão?
– Chamei sim – respondeu o patrão. – Chamei você aqui para negociarmos o seu novo contrato de trabalho – concluiu.
– Que contrato? Eu trabalho de carteira assinada. Sou CLT – disse o trabalhador, orgulhoso de seus direitos.
– CLT? Isto não existe mais.
– Desde quando?
– Desde que o senador Flávio Bolsonaro ganhou a eleição.
– Mas, eu votei nele. Fiz campanha na fábrica. Com a turma do bar, da pelada. Minha família toda votou nele. Ele prometeu que não ia acabar com os nossos direitos – choramingou o trabalhador.
– E você acreditou? – perguntou o patrão, com um sorriso cínico. – Você não foi o único. Muita gente acreditou. Durante a campanha política, em cada três palavras do senador, duas eram mentiras. E mesmo assim você acreditou? Mas não se preocupe, seu salário não vai diminuir, pelo contrário, você pode até ganhar mais.
– Jura? – perguntou o trabalhador.
– Bom, jurar eu não juro, não. Até porque depois que Flávio Bolsonaro demitiu Nossa Senhora de Aparecida da função de padroeira do Brasil, nós não temos mais por quem jurar.
– Mas ele prometeu que não ia mexer com a Santa! – lamentou o trabalhador.
– Ele tinha que arranjar um cargo para o pai. E como ele está inelegível – explicou o patrão.
–Agora, Jair Bolsonaro é nosso padroeiro? – quis saber o empregado. – De tornozeleira eletrônica?
– É. E ele já operou um milagre: você agora vai ganhar por horas trabalhadas. Viu? Que maravilha! R$ 7. Você pode ficar rico!
– Como? – quis saber o trabalhador.
– Se você trabalhar 20 horas por dia, vai ganhar 140 pratas. R$4.200 por mês. Bem mais que o salário mínimo.
– Mas, o dia tem 24 horas. Só vão me sobrar 4 horas pra descansar.
– E o senhor precisa mais do que isso?
– Eu moro em Japeri. São duas horas pra ir e duas pra voltar. Como eu vou descansar? – questionou o empregado.
– No trem. Flávio vai mandar instalar rede nos trens suburbanos, para o trabalhador descansar no trajeto – disse o patrão, orgulhoso de seu novo presidente.
– A sorte que eu tenho férias vencidas, vou poder descansar uns dias – disse o trabalhador.
– Tinha. Isto também acabou! Você não tem mais férias, décimo terceiro salário, FGTS, PIS, seguro-desemprego, auxílio maternidade… Sua vida agora ficou bem mais fácil de ser administrada – disse o patrão.
– O senhor pode fazer um PIX para eu pagar a passagem do trem? – perguntou o funcionário.
– O PIX agora é do Trump. Pode ser um voucher? – perguntou o patrão.
– Bom, pelo menos na escala 6X1 eu tenho um dia pra descansar – resignou-se o trabalhador.
– Tinha. Flávio Bolsonaro mudou a escala para 7X0. Mas o senhor pode descansar quando morrer.
https://www.brasil247.com/blog/o-pobre-de-direita/
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