O home office trouxe uma mudança profunda na relação entre trabalho e vida pessoal, permitindo economizar tempo de deslocamento, organizar melhor a rotina e, em muitos casos, aumentar a autonomia. Mas uma nova análise sobre os efeitos do trabalho remoto chama atenção para um problema menos visível: quando trabalhar em casa significa passar grande parte do dia sozinho, a falta de contato social pode pesar sobre a saúde mental.
O alerta ganhou força com um estudo publicado na revista Science, que analisou mais de uma década de dados de pesquisas nacionais. Os pesquisadores compararam pessoas que ocupavam funções compatíveis com o trabalho remoto, como marketing, com trabalhadores de profissões essencialmente presenciais, como a cirurgia. O estudo não identificou quais indivíduos efetivamente trabalhavam de casa, portanto seus resultados mostram uma associação e não permitem afirmar que o home office, isoladamente, seja a causa do sofrimento psicológico.
Um dos dados mais expressivos apareceu entre as pessoas que moravam sozinhas. Trabalhadores solitários em ocupações compatíveis com o trabalho remoto passaram cerca de 25% dos dias sem contato social, mais do que o dobro observado entre pessoas em funções que exigiam presença física. O estudo também encontrou uma mudança no sofrimento psicológico que foi duas vezes maior entre moradores sozinhos em empregos compatíveis com o trabalho remoto, quando comparados com aqueles que viviam acompanhados.
Isso não significa que voltar ao escritório cinco dias por semana seja automaticamente a solução. Especialistas em psicologia organizacional ouvidos pela reportagem ressaltam que estar fisicamente no escritório não garante conexão humana de qualidade. Um trabalhador pode compartilhar o mesmo espaço com dezenas de colegas e continuar isolado, especialmente quando não existem relações de confiança, apoio ou sentimento de pertencimento.
Uma revisão sistemática publicada em julho de 2026, que reuniu 20 estudos longitudinais realizados em países da OCDE entre 2005 e 2024, chegou a uma conclusão semelhante: os efeitos do teletrabalho sobre a saúde são heterogêneos e dependem das condições em que o trabalho é realizado. Carga excessiva, intensificação do trabalho, pouca autonomia, insegurança profissional, baixo apoio social e dificuldade de separar trabalho e vida pessoal aparecem associados a maior sofrimento psicológico, enquanto autonomia e condições psicossociais favoráveis podem ter efeito protetor.
A questão das fronteiras entre trabalho e vida pessoal é particularmente importante. Quando escritório e residência passam a ser o mesmo lugar, pode desaparecer o ritual que antes separava o fim da jornada do restante do dia. O trabalhador pode terminar uma reunião e continuar diante do computador, responder mensagens durante a noite ou antecipar tarefas antes mesmo de começar oficialmente a jornada. Pesquisas recentes sobre teletrabalho também identificam justamente essa permeabilidade entre tempo profissional e doméstico como um dos fatores que influenciam o bem-estar.
Há, entretanto, outro lado dessa equação. O trabalho remoto também pode representar uma importante melhora na qualidade de vida. Trabalhadores podem eliminar longos deslocamentos, organizar melhor determinados compromissos e utilizar o tempo economizado para atividade física, descanso ou convivência familiar. Uma pesquisa publicada em 2026 na Frontiers in Psychology identificou estratégias utilizadas por trabalhadores remotos para preservar o bem-estar, incluindo estabelecimento de limites, criação de rituais e períodos de recuperação.
Um exemplo citado pela reportagem é o de uma advogada que trabalha remotamente desde 2020. Depois de receber um diagnóstico que dificultava um deslocamento diário de duas horas e meia até o escritório, ela passou a utilizar o tempo que anteriormente gastava no trânsito para fazer exercícios e praticar atenção plena antes de começar a trabalhar. O fato de viver com familiares e um cachorro também lhe proporciona companhia durante a rotina.
O problema, portanto, parece estar menos relacionado ao endereço onde a pessoa trabalha e mais à qualidade da sua rede de relações e à organização da jornada. Um trabalhador remoto que mantém contato regular com familiares, amigos, colegas e outras comunidades pode ter uma experiência completamente diferente daquela vivida por alguém que passa dias inteiros sozinho e praticamente não interage presencialmente com outras pessoas.
Uma alternativa que vem chamando atenção são os chamados “terceiros espaços”, como cafeterias e ambientes de coworking. Segundo a psicóloga organizacional Constance Noonan Hadley, entrevistada pela CNN, esses locais podem proporcionar interações sociais mais espontâneas porque as pessoas não estão necessariamente submetidas à mesma competição ou hierarquia existente em um ambiente corporativo.
Até pequenas interações cotidianas podem contribuir para diminuir a sensação de isolamento. Conversar brevemente com alguém durante um café, encontrar amigos depois do expediente, participar de atividades coletivas ou estabelecer dias específicos para trabalhar próximo de outras pessoas são formas de introduzir contato social na rotina sem necessariamente abandonar os benefícios do trabalho remoto.
Para as empresas, a discussão também representa um desafio. Programas de mentoria, grupos sociais, encontros voluntários e atividades de integração podem ajudar trabalhadores que apresentam maior isolamento. Especialistas destacam, porém, que essas iniciativas precisam ser construídas de maneira que as pessoas se sintam incluídas e não como uma obrigação adicional imposta pela organização.
No Brasil, a discussão ganha ainda outra dimensão: um estudo publicado em junho de 2026 sobre o direito à desconexão no teletrabalho apontou que a hiperconectividade e a dificuldade de separar jornada profissional e descanso continuam sendo desafios relevantes para a saúde mental. A pesquisa analisou a legislação brasileira e identificou lacunas na proteção efetiva do tempo de descanso dos trabalhadores remotos.
A conclusão dos estudos recentes é menos simples do que dizer que trabalhar em casa faz mal ou que trabalhar no escritório faz bem. O teletrabalho pode ser benéfico ou prejudicial dependendo da carga de trabalho, autonomia, apoio social, segurança profissional, qualidade das relações e capacidade de estabelecer limites entre trabalho e vida pessoal.
Por isso, para quem trabalha remotamente, o sinal de alerta não é simplesmente estar em casa. É perceber se a rotina está acompanhada de isolamento persistente, ausência de contato social, dificuldade para desligar-se do trabalho, exaustão ou perda de atividades que antes proporcionavam satisfação. Nesses casos, reorganizar a rotina e procurar apoio profissional quando necessário pode ser mais importante do que simplesmente decidir entre casa ou escritório.
O futuro do trabalho provavelmente não será definido apenas pela pergunta “de onde trabalhar?”, mas também por outra questão: “como trabalhar sem perder a conexão com as outras pessoas e sem transformar a própria casa em um lugar onde a jornada nunca termina?”.
Foto: Morsa Images / Digital Vision / Getty Images / CNN Newsource
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