
Há 90 anos, em 4 de outubro de 1936, dezenas de milhares de trabalhadores e moradores do bairro operário de East End, em Londres, derrotaram uma tentativa de marcha da União Britânica de Fascistas (BUF), dirigida por Oswald Mosley, após erguerem barricadas e enfrentarem milhares de policiais mobilizados para proteger os fascistas. O episódio, conhecido como Batalha de Cable Street, foi recuperado em uma análise publicada pelo portal britânico Red Flag News, em 3 de outubro, que destaca o papel dirigente do Partido Comunista da Grã-Bretanha (PCGB) na organização das massas e sustenta que a vitória resultou da combinação entre a mobilização combativa dos trabalhadores e uma direção política proletária.
Naquele domingo, aproximadamente 3 mil integrantes da BUF, conhecidos como “camisas negras”, pretendiam marchar pelo East End, região habitada por trabalhadores pobres e uma numerosa comunidade judaica. Diante da provocação, operários, imigrantes judeus e irlandeses e moradores de diferentes nacionalidades ocuparam as ruas para impedir a passagem dos fascistas. A palavra de ordem “Não passarão!”, levantada também pelos combatentes antifascistas na Guerra Civil Espanhola, difundiu-se entre os manifestantes.
Os trabalhadores bloquearam as principais vias de acesso ao bairro e construíram barricadas com móveis, mesas, sofás e outros materiais disponíveis, chegando a virar um ônibus para obstruir uma das ruas. A polícia britânica, mobilizada para garantir a passagem da BUF, investiu contra os bloqueios, mas encontrou forte resistência. Ao final dos confrontos, as autoridades foram obrigadas a cancelar o percurso planejado para a marcha fascista.
O dirigente comunista Phil Piratin, participante da resistência, descreveu posteriormente a mobilização como um acontecimento sem paralelo na história recente da luta da classe operária britânica, com exceção da Greve Geral de 1926. No Brasil, dois anos antes da Batalha de Cable Street, comunistas e antifascistas também haviam derrotado em armas uma marcha integralista na grande Batalha da Praça da Sé, em 7 de outubro de 1934, que serviu de catalisador para a criação da Aliança Nacional Libertadora (ANL) no ano seguinte.

Partido Comunista organizou resistência nos bairros operários
Segundo a análise do Red Flag News, a vitória de Cable Street não resultou de uma reação espontânea e isolada à provocação fascista. Ela foi preparada pelo trabalho político desenvolvido pelo CPGB nos sindicatos, círculos operários e organizações populares do East End, por meio da participação nas lutas cotidianas dos trabalhadores e da organização de diferentes comunidades sob reivindicações comuns.
O Partido Comunista havia conquistado influência particularmente expressiva entre os trabalhadores judeus, muitos dos quais eram refugiados da perseguição antissemita na Europa Oriental e do avanço nazista na Alemanha. Seus militantes também atuavam junto aos trabalhadores irlandeses, britânicos e de outras nacionalidades, buscando construir a unidade da classe operária contra as divisões nacionais e religiosas exploradas pelos fascistas.
A BUF, por sua vez, procurava ampliar sua influência nesses mesmos bairros, responsabilizando os judeus pela crise econômica e promovendo ataques contra seus estabelecimentos comerciais. Embora tentasse conquistar setores atrasados dos trabalhadores, a organização fascista contava com o apoio de setores da aristocracia e de magnatas da imprensa burguesa, que contribuíam para divulgar sua propaganda nacionalista e antissemita.
O portal destaca que a orientação adotada pelo CPGB estava vinculada à política de Frente Popular aprovada no glorioso 7º Congresso da Internacional Comunista, em 1935, sob a direção de Georgi Dimitrov e do grande Stalin. Diante do avanço do fascismo na Europa, os comunistas defendiam a construção de amplas alianças com organizações democráticas, progressistas e antifascistas, sem abandonar a independência política do proletariado nem sua perspectiva de luta pelo socialismo.
No East End, essa política se concretizou na articulação entre organizações sindicais, associações de trabalhadores, entidades das comunidades imigrantes e organizações revolucionárias. O objetivo era incorporar as mais amplas massas à resistência antifascista, mantendo a direção política dos comunistas sobre o movimento.
Essa inserção nas organizações populares permitiu mobilizar rapidamente milhares de pessoas quando os fascistas anunciaram sua intenção de marchar pelo bairro. Estivadores, entregadores e operários da construção interromperam o trabalho para participar da resistência, enquanto militantes da Liga da Juventude Comunista (YCL) prestavam assistência aos feridos nos enfrentamentos com a polícia e os fascistas.

Vitória antifascista repercutiu internacionalmente
A resistência de Cable Street ocorreu num momento de expansão do fascismo na Europa. Na Alemanha, o regime nazista consolidava sua ditadura, enquanto, na Itália, Benito Mussolini aprofundava sua política de agressão imperialista. Na Espanha, o golpe militar de Francisco Franco, iniciado em julho de 1936, havia desencadeado a Guerra Civil e uma ampla resistência armada popular contra a contrarrevolução.
A vitória dos trabalhadores de Londres repercutiu também entre os combatentes antifascistas espanhóis. Segundo o relato de Phil Piratin recuperado pelo Red Flag News, guerrilheiros que enfrentavam os fascistas na Espanha enviaram mensagens afirmando terem encontrado inspiração nas notícias sobre a resistência das massas operárias britânicas.
Para o portal, o episódio demonstrou que a luta contra o fascismo não poderia depender da proteção das instituições do Estado burguês, uma vez que, em Cable Street, a própria polícia havia sido mobilizada para garantir a realização da marcha fascista. A resistência organizada dos trabalhadores impediu a passagem dos “camisas negras”, utilizando barricadas e a força coletiva das massas.
O Red Flag News sustenta que a principal lição da batalha permanece atual diante do ressurgimento de organizações fascistas e de extrema direita no Reino Unido. Na avaliação do portal, o movimento antifascista contemporâneo não poderá recuperar a combatividade demonstrada em Cable Street enquanto permanecer subordinado ao pacifismo, ao reformismo e a concepções políticas que desvinculam o combate ao fascismo da luta de classes. Pelo contrário, aquela experiência demonstra precisamente a importância de uma direção proletária organizada, capaz de unir as massas e vincular a luta antifascista à luta pelo poder político.
Essa tarefa já mobiliza os comunistas maoistas britânicos. Em agosto, revolucionários de oito cidades realizaram uma campanha nacional pela reconstituição do PCGB, acompanhada de uma declaração conjunta que defende a unidade dos comunistas sob o mando e guia do marxismo-leninismo-maoismo.

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